Ao escrever este texto lembrei-me do velho amigo Jamil Miguel, um próspero comerciante de tecidos da Rua 25 de Março. Costumava referir-se com certa rigidez quando alguém lhe chamava de "turco".
– Eu não sou turco, sou sírio, dizia com certa firmeza de opinião. Essa era uma frase cunhada pelos sírios que vieram para o Brasil em busca de oportunidades, como tantos outros imigrantes, que partiram de sua terra natal. Os "turcos" como eram chamados os imigrantes árabes pela população paulistana no começo do século XX eram em sua maioria caixeiros-viajantes, que penetravam no centro-oeste para vender suas mercadorias.
Vendiam em lombo de animais, desde tecidos até sapatos, botas e centenas de outros produtos e representavam uma das fontes de informação mais confiáveis junto à população do cerrado goiano e mato-grossense, onde viviam milhares de famílias isoladas em pequenas vilas e tendo nos "turcos" um dos únicos meios de saber "as novidades" da capital e do país. Em Goiás existe uma das mais prósperas comunidades de descendentes de sírio-libaneses.
Há séculos dominados pelo Império Turco-Otomano, muitas vezes fazia-lhe referência como a "Sublime Porta" ou simplesmente como "A Porta". Esta porta era a entrada do palácio do Grão-vizir, símbolo do poder otomano, que embora residisse no Sultão, a sua face visível era a do governo do seu Grão-vizir, pois era muito raro que alguém para além dos seus servidores mais diretos e altos dignitários otomanos fosse admitido a presença do Sultão.
Sua capital era a cidade de Constantinopla, tomada ao Império Bizantino em 29 de maio de 1453. O Império Otomano foi a única potência muçulmana a desafiar o crescente poderio da Europa Ocidental entre os séculos XV e XIX. Declinou marcadamente ao longo do século XIX e terminou por ser dissolvido após sua derrota na Primeira Guerra Mundial. Ao final do conflito, o governo otomano desmoronou e o seu território foi partilhado.
O cerne político-geográfico do império transformou-se na República da Turquia, após a guerra da independência turca. Os árabes viram na emigração uma forma de fuga da violenta dominação turca. Os turcos, de fé islâmica, perseguiam as comunidades cristãs árabes. Em fins do século XIX os árabes cristãos, em sua maioria partindo da Síria e do Líbano, passaram a se espalhar pelo mundo: os destinos principais foram a América do Norte, América do Sul – em especial o Brasil.
O Brasil, naquela época, era um país quase desconhecido no mundo árabe. Os imigrantes apenas sabiam que estavam indo para a América e, por muitas vezes, imaginavam estarem indo para os Estados Unidos. Ao chegarem ao Brasil, muitos árabes se chocaram ao descobrir que estavam, de fato, aportando na América do Sul. As primeiras levas significativas de imigrantes árabes começaram oficialmente no Brasil por volta de 1880, com uma grande quantidade de libaneses.
Calcula-se que, até o ano de 1900, chegaram ao Brasil 5.400 árabes. Os problemas socioeconômicos agravados no Oriente Médio no início do século XX fizeram crescer a emigração em direção ao Brasil: no ano de 1920 viviam no país pouco mais de 50 mil árabes. Diferentemente de outras correntes migratórias, os sírio-libaneses não vieram para trabalhar em lavouras, começaram a vida, em sua maioria, como mascates e com o tempo se tornavam grandes varejistas e industriais.
Espalhados por todo país, se concentram em maior parte na região Sudeste, onde estão ligados ao desenvolvimento econômico de todo o país. A partir de 1912, fugindo de conflitos no Oriente Médio, sírios, libaneses, turcos e armênios passaram a chegar ao porto de Santos. Dessa cidade, partiram para o porto de Corumbá, o portal de entrada para o centro-oeste e o polo comercial do Mato Grosso.
De lá, dispersaram-se para outras cidades do estado. Muitos outros também chegaram através Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, a qual ajudaram a construir. Mesmo antes de terminada a construção da estrada de ferro, no entanto, já passavam a se dedicar ao comércio, sua principal atividade. Durante as décadas de 1920 e 1930, os sírio-libaneses serviam a região não só abastecendo de produtos, mas também proporcionavam a ela a atualização de fatos políticos relevantes, como fora a Revolução de 30, a "Coluna Prestes", o Golpe de Vargas e uma coletânea de informações sobre fatos históricos que aconteciam no Brasil.
Na fonética os imigrantes árabes acabavam utilizando eles a letra "b" no lugar de alguma vogal ou consoante, como "batrício" em vez de "patrício", tornou-se expressão folclórica para designar os imigrantes árabes na região. Os primeiros imigrantes árabes que chegaram à região vieram do Oriente Médio por volta de 1860. Tinham basicamente a nacionalidade sírio-libanesa, e em menor número os “transjordanianos”.
Os registros oficiais apontam a chegada significativa desses imigrantes aos portos de Montevidéu, Buenos Aires, Rio de Janeiro e Santos. Posteriormente, nas décadas de 1870, 1880 e 1890 essa movimentação iria se acentuar, sendo que muitos desses imigrantes acabaram fixando residência na faixa de fronteira gaúcha, em especial na região de Santana do Livramento, Bagé e Chuí. Em termos proporcionais, Foz do Iguaçu no Paraná possui a maior comunidade islâmica do Brasil.
A grande maioria dos imigrantes árabes chegados ao Brasil rumou para São Paulo. Na capital do estado, os sírio-libaneses rapidamente formaram uma forte comunidade de comerciantes. Foram os árabes que criaram o comércio popular da Rua 25 de Março, hoje o maior centro de comércio do Brasil. Grandes parcelas de imigrantes também se fixaram nos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Muitas cidades do sudeste foram construídas ou se desenvolveram com a presença árabe em seus territórios.
Os árabes que se mudaram para o Brasil eram em sua maioria comerciantes e ajudaram muitas localidades com um desenvolvimento ainda efêmero a mudar seu perfil socioeconômico, trazendo sua experiência com o comércio para as regiões onde se estabeleciam. No nordeste brasileiro, se destacam com uma população significativa o Maranhão e o Ceará. Muitos dizem que a coalhada, que é alimento típico do Ceará, foi trazida pelos sírios para o estado.
Outro sinal da presença árabe no Ceará é a Igreja de Nossa Senhora do Líbano. E em Recife, capital de Pernambuco, é o centro de árabes sírios e árabes marroquinos. No norte do Brasil, algumas cidades chegaram a ser fundadas por imigrantes árabes. Marabá, no sudeste do Pará, teria sido colonizada inicialmente por imigrantes “transjordanianos” (hoje parte da Palestina), sendo que muitas destas famílias se tornaram predominantes e oligarcas na região.
Outros estados que receberam população significativa de árabes foram o Amazonas, o Acre, Rondônia e Tocantins. Os árabes que imigraram ao Brasil eram, em sua grande maioria, pertencentes às igrejas cristãs, sendo a maioria da Síria e Líbano católicos maronitas. Chegados ao Brasil, rapidamente se associavam à Igreja Católica. Porém, a leva mais recente de imigrantes sírio-libaneses é, consideravelmente, islâmica com uma minoria judaica.
Esses dados foram retirados das informações do censo do IBGE que contabilizou a existência de 27.239 islâmicos no Brasil, embora a Federação Islâmica Brasileira afirme a presença de 1,5 milhão de muçulmanos no País. Este é um breve relato da imigração sírio-libanesa aqui no Brasil, um país que recebeu e acolheu com carinho a todos os cidadãos de origem árabe e que convivem em perfeita paz e harmonia com outros povos que aqui também aportaram.
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