Sentado no sofá da minha casa de praia em um sábado, construída com muito sacrifício, relaxando com um copo de suco de laranja na mão e olhando com binóculos os pássaros da mata Atlântica, na reserva florestal do fundo do quintal, atendo uma ligação de uma pessoa que dizia chamar-se fulano de tal e era segurança de uma padaria famosa que fica em frente ao meu apartamento na capital.
Ele disse que queria falar com o proprietário do carro preto placa tal, cita o meu nome, e disse que uma mulher dirigindo o meu carro entrou na floricultura ao lado, comprou cinco rosas, bateu no carro dele e fugiu e queria ser reembolsado do prejuízo. Diante disso, fui olhar meu carro e não tinha nenhum amassado, falo com minha esposa e a mesma disse que nunca entrou na floricultura e não bateu em nenhum carro. Retorno e digo que deve haver um engano, mas o mesmo enfaticamente dizia ter filmagens do circuito de segurança da padaria e testemunhas. Recomendo então a ele que veja o filme várias vezes para ter certeza do que está falando, pergunto quem eram as testemunhas e o mesmo cita um funcionário da floricultura ao lado "que viu tudo".
Algumas horas mais tarde, toca o telefone novamente com o tal sujeito na linha e pergunto como ele sabia o meu nome. Ele alegou ser através da placa do carro pela internet, em pesquisa do certificado de propriedade e o telefone celular também em pesquisa através do meu nome. Aí começa o martírio. O mesmo passa a ligar sistematicamente para o celular e já no domingo por volta das 18h passa a conversar em um tom ameaçador dizendo que vai receber o pagamento por bem ou por mal. O final de semana que deveria ser agradável passou a ser repleto de tensão e temores. Não atendemos mais as ligações e desconsideramos, haja visto o número de psicopatas que existe nesta cidade, alguns até muito populares ocupando altos cargos administrativos, mas isso é outra coisa.
Segunda-feira pala manhã, o mesmo liga diretamente ao meu telefone fixo na capital e as ameaças continuam. Então decidimos: minha esposa iria à delegacia de polícia solicitar à autoridade de plantão um B.O. e eu iria falar com o dono da floricultura, pessoa muito educada, que me atendeu com cortesia e chamou o funcionário "que viu tudo". Ao sair da floricultura encontrei minha esposa batendo boca com o tal segurança. Ao falar com o mesmo percebi um certo grau de insanidade mental estampado em seu olhar, e resolvi ir embora enquanto minha esposa ficaria lá aguardando a testemunha ocular, a qual chegou minutos após e disse perante o segurança que não era ela, e que a mulher do acidente tinha características físicas diferentes. O tal segurança pediu desculpas a ela e mandou um recado me pedindo desculpas também.
As grandes cidades são assim mesmo e em São Paulo tenho até medo de cumprimentar as pessoas, pois posso receber uma mordida de volta.
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