Memórias esfarrapadas

Estamos em janeiro de 2013, o ano acaba de começar, mas para a maioria do povo brasileiro 2013 vai começar de verdade na quinta-feira depois do Carnaval, em plena quaresma. Até lá iremos levando os dias em banho-maria. O verão está em plena atividade, o calor é insano, então por que iremos nos preocupar com a vida? Vamos esperar… Como canta aquela modinha: "Prá quando o Carnaval chegar…".

Dizem (mas não provam) que São Paulo não tem Carnaval, então pergunto o que aconteceu naquela segunda-feira de fevereiro do ano de 1947? Explico: precisamente naquele dia, um grupo de foliões de São Paulo, moradores do bairro do Bixiga, decidiu, na melhor forma de direito popularesco, organizar um bloco carnavalesco. Esse bloco que primava pela peculiaridade de não ter estatutos, diretores e demais burocráticas atitudes tão a gosto dos cultores de formalidades.

Foi ele batizado por "Bloco dos Esfarrapados", pois, de acordo com sua base estrutural, não defenderia cores, nem teria fantasias formais. Seria formado apenas por um grupo de foliões dispostos a desfilar pelas ruas do bairro, fantasiados, cada qual com fantasias criadas por suas ideias, confeccionadas em papeis, em jornais, em roupas velhas ou o que mais fosse conveniente. Ideia aprovada, saiu o bloco pela vez primeira naquela tarde de segunda-feira levando, de início, uns poucos adeptos e, entre eles, Armandinho Pugliesi (que o organizou por vários anos) a percorrer o bairro do Bixiga.

Em cada rua por onde ele passava, mais carnavalescos aderiam e, ao final, centenas de foliões, na maioria homens, devidamente zonzos pelo desfile etílico que também se instalara na passeata, terminavam a brincadeira já no início da noite. Essa atividade foi se instalando no tradicionalismo do bairro e até hoje é motivo de orgulho dos moradores do Bixiga.

Eu, quando jovem e solteiro, também desfilei nesse bloco. Primava por me fantasiar com temas da época. Foram várias fantasias, de palhaço, de cruzeiro novo, de capanga/capenga, e muitas outras. Eu e os outros componentes dos Duques de Piu-Piu nos divertíamos para valer e, lógico, bebíamos como gente grande.

O Bloco tem uma peculiaridade ímpar, permite que as pessoas com vontade de sair nele, mas sem coragem de ir ao ponto de concentração devidamente fantasiadas, esperem a passagem na porta de sua casa e, então, se incorporem à bagunça. No meu entender, este é, realmente, o grande Carnaval de Rua, não requer luxo ou grandes aparatos, cada um vai do jeito que quiser e entra ou sai do bloco em qualquer lugar.

Hoje, residindo distante do meu Bixiga, tenho, por vezes, uma vontade enorme de me misturar aos componentes desse bloco, só não levando a cabo minha vontade, por saber que as pernas não mais me permitirão esse ousado desvario a transitar no Carnaval. Salve, então, o Zé Pereira que foi o primeiro "bloco de sujos".

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