Rua Tamandaré, o número me foge

Lembranças vêm à luz. Abro a gaveta do fichário da memória. E para fazer jus à época, fichário do tipo Kardex. Contemporâneos de mim lembram. Que antes das máquinas xerox, a gente tirava cópia de documentos nos "rolos de gelatina", não? Máquinas de "somar" Olivetti, "manuais" e elétricas – como se estas não fossem também manuais. Máquinas de calcular Facit, de alavanquinhas giratórias. Armários de aço "Fiel" – Rua da Cachoeira, no Catumbi – do inconfundível cão pastor alemão de orelhas rígidas. E tempo também dos grampeadores inoxidáveis, pesadões, que vinham da terra de Tio Sam. Anos 60.<br><br>Meu primeiro emprego, informal, de 11 a 13 anos, foi de entregador de remédios em uma farmácia. Empreguinho que me possibilitou conhecer parte de meu bairro. Vila Mariana, para onde fui com um mês de paulistaninho. Isso em 1948, do Glicério, onde meus pais então moravam. Meu pai trabalhava ao lado, nas oficinas do Cambuci, da The São Paulo Light. Pois agora, fevereiro de 1961, eu tinha 13 anos – que completara no dezembro antes. Ah! Agora era "outro" emprego – registrado! Eu passava para… entregador de remédios! Nas farmácias de toda a cidade… Remédios (hoje, "fármacos") produzidos em um "laboratório", então denominação comum às indústrias químico-farmacêuticas e congêneres, não? Naqueles anos 60, São Paulo (e Rio de Janeiro idem) ainda abriga muitos laboratórios. Que, entretanto, vão progressivamente indo embora…<br><br>Algodão, gaze, esparadrapo, "bandeide". Johnson ou York. York que, apesar do nome – falavam – era indústria nacional. E que tinha mudado da Rua Aprígio Gonzaga para o Tatuapé, perto do Corinthians. Liquidificador? Arno ou Walita – uma na Mooca, outra na Vila Mariana. Refri? Coca-cola ou Crush. E "sévenáp", que tinha um rótulo assim: "7 up". Sinceramente, eu é que não entendia. Tempo aquele em que todos os bares – existia lanchonete? – punham nos anúncios a palavra misto-quente com xis…<br><br>Nós, aquela meia dúzia de três ou quatro entregadores, éramos pré-adolescentes. Eu fiquei lá até 17 anos, mas só entreguei por um ano. Nesse ínterim, tirei brevê de datilógrafo (batia com todos os dedos, sem olhar no teclado). E mais tarde é que vim a pilotar duas aeronaves de teclas: Remington-Rand (Tilm! Tlim!) e Olivetti Lettera (Rééééc!). Comecei a fazer entregas de remédios onde (bairros) farmácia existisse. Paulatinamente – que experiência deliciosa, apesar dos percalços! – São Paulo veio se descortinando para mim. Colossal, surpreendente e diversa, cidade que já era metrópole. Antes de nascer oficialmente a denominação "Grande São Paulo".<br><br>Cada um de nós, naquele 1961/2, levava nas mãos de um a vários pacotes de remédios. Embrulhados que eram em papel rosa, grosso, barbante forte garantindo a integridade da carga. Rodar São Paulo. A pé (quando "perto", para embolsar condução), de bonde (menos caro), de ônibus ou os relativamente poucos trólebus. Ou de trem "de subúrbio". Porque de metrô… o mais próximo ficava em Buenos Aires. Condução cheia? Dureza! Às vezes, pacotes rebentando. Remédios quebrando. Isto é, entrega abortada. Lembro, até por acaso, que aquele ônibus 79 – Santo Amaro nem estava cheio: estava lotado! Eu, em pé, na frente, sob o braço, desafiando a gravidade, mantinha o pacotaço. Já o ilustre passageiro, muito cortês, nem se dignava de ajudar. Inevitavelmente, a cada brecada ou arrancada, o pacote beliscava o couro cabeludo do sujeito. "Desculpa!". O sujeito, então, como a cada ação corresponde uma reação, ia pisando a ponta do meu pé. Até chegar o Anhangabaú. Ufa! Chegou! Meu pé, então, suspirou de alívio!<br><br>Itapecerica (via Pinheiros, via Santo Amaro), ABC, Mogi das Cruzes (trem da Central do Brasil), Osasco (ainda bairro), Franco da Rocha (Santos a Jundiaí), eram os lugares mais longe a que os entregadores chegavam. Para Mairiporã – um passeio que nunca fiz – um ônibus urbano, meio interurbano. Que saía da Luz, Rua Mauá. Da "Nações Unidas". Era um Scania – Bossa Nova, poltronas "tipo" rodoviárias. De uma porta só. Nunca andei nele, eu que era louco para conhecer o percurso, Mairiporã e o tal "Bossa Nova"…<br><br>Meus colegas de entrega diziam que nos éramos trabalhadores "de" menor. Tempo das cadernetas de contribuição previdenciária para o IAPI (no caso, claro – posto que havia também IAPB, IAPC, IAPTEC…). Guardei as minhas quatro. Vós também, contemporâneos de meus 65? Curiosamente para mim, não é que não lembro dos nomes dos remédios de caixa azul e branco que tanto entreguei nas farmácias, na Drogasil, Drogaria São Paulo e Irmãos Guimarães? – este último, Rua Carneiro Leão, muitos lembram. Só me recordo de um: Acridinal. Que vendia muito. Em qualquer "pedido" ele lá estava – todo metidão! Comprimidos (drágeas?). E para que servia? Ora, como lembro do nome, certamente para falta de memória é que não era. <br><br>A grande maioria de funcionários era de mulheres. Na "produção", quase totalidade. Uniformizadas de branco. Muitas delas moravam em Itaquera, tão longe! É que uma ia arrumando emprego para a outra: amiga, vizinha, parente… Os vendedores-propangadistas, todos masculinos: terno e gravata, condição “sine qua non”. Laboratório Xavier, de João Gomes Xavier. Rua Tamandaré, o número me foge. Liberdade ou Aclimação? Tanto faz, tão próximos… Mudou para "Procienx" (eu estava lá). Depois, acho que americanizou: tornou-se Byk-Procienx: Rua Estilo Barroco (eu já havia saltado de paraquedas). Rua muito importante – como todas, para cada um de nós paulistanos. Faz tempo que não desço nem subo aquela rampa, a Rua Tamandaré. <br><br>No local do laboratório (meu primeiro emprego registrado), brotou um grande templo (se bem me lembro) oriental. A igrejinha "russa" sobrevive, perto da então "Maternidade Modelo". Os paralelepípedos jazem sob o betume. “Os Mercedinha” da CMTC, linha 17 – Sé/Jardim da Aclimação "descansam em paz", eles que muito nos transportaram, os operários do Xavier. A partir do ponto da esquina com José Getúlio. Sempre cheios.

Pois é, prezado site SPMC. Agradeço a oportunidade de poder registrar tais reminiscências (minhas) paulistanas. Todos sabemos que recordar é viver. O José Divino também não mais lá está para nos despachar, os entregadores, pelos quatro cantos, com pacotes de Acridinal e outros mais. Minhas carteiras "de" menor são peças de museu. Assim, recolho as fichas de registrar, na memória, fichas do tipo Kardex. E – derradeiro, que fazer? – fecho a gaveta de aço "Fiel", a do pastor alemão. “Pluuum…”<br><br><br>E-mail: [email protected]