Que sacanagem: a vida de dor e coragem de Fro Pertha

Algumas pessoas me perguntaram como travei conhecimento com Fro Pertha, o que não narrei na história "Que encrenca: uma justa homenagem a Bertha Dobiesky". Levava a termo um trabalho a pedido da subprefeitura de Moema, Vilas Mariana e Clementino. Recenseava as casas de repouso dos nossos bairros, quando, indo a uma delas, a fim de marcar entrevista com a diretora, não pude deixar de reparar em uma das moradoras. Voltei na semana seguinte para a entrevista marcada. Lá estava a mesma senhora. Elegantemente trajada, na primeira vez, com uma saia e uma camisa azuis, uma bela gargantilha com uma estrela de David, aparentemente de ouro ou folhada a ouro.

Na semana seguinte, com um vestido de gola alta, cobrindo-lhe todo o pescoço até a altura do colo, uma estrela de David com um pequeno aljôfar no ortocentro do pentágono formado pela sobreposição dos dois triângulos. Em ocasiões como estas, a mente é, como o diria José de Alencar, como o desejo de “escavar do equino”: tem de se locupletar de informação tal qual o corcel precisa cavar o solo. Quem seria aquela senhora, judia, charmosa numa ancianidade relegada à solidão de uma casa de repouso? Apropinquei-me timidamente e começamos a conversar. Voltei duas vezes só para continuarmos nossas conversas. Sempre que chegava, já logo me ofertava um docinho ou algum biscoito que pedia a uma das atendentes para providenciarem. Foi quando passei a chamá-la de Fro Pertha, referindo-me jocosa e agradecidamente à figura do folclore germânico (uma mítica senhora obesa que distribui vitualhas durante a epifania, 06 de Janeiro).

Não se furtava a desfilar sua triste história, a quem quer que se dispusesse a ouvi-la com seu ainda forte sotaque iídiche, malgrado o peso de décadas no país lusófono. Vivia em uma pequena aldeia ucraniana. Certo dia, surge um senhor, dizendo vir tratar do casamento de um jovem judeu de boa família, conquanto pobre que morava em São Paulo. Não havendo moças da comunidade israelita, então minúscula, estava em solo europeu como proxeneta. Os pais de Fro aceitaram e deixaram-na partir ao Brasil. Mal desembarcada em Santos foi trazida a um cabaré em São Paulo. Na mesma noite, foi violentada por quatro homens. Gritava que o "noivo" os mataria quando soubesse, quando uma outra "polaca" – termo pelo qual se denominavam as bailarinas de cabaré do leste europeu, quase todas judias, aos azos – lhe explicou que também fora ludibriada com a estória de um "jovem judeu pobre de boa família".

Tal rapaz só existia nas maquinações funestas dos recrutadores de moças para o exercício da profissão de bailarina de cabaré ou de acompanhantes. Fro Pertha fugiu e obtestou por auxílio a diversas famílias judias. Uma senhora, ao saber tratar-se de uma "schitze" – acompanhante, em iídiche – jogou-lhe uma panela de água quente. Com seu pescoço indelevelmente queimado, voltou ao cabaré e trabalhou ali por vários anos, sempre com uma gargantilha ou gola alta a tapar-lhe as cicatrizes. Alguns anos mais tarde, quando uma outra moça veio a falecer, Fro Pertha soube que nenhum rabino executava as exéquias para uma "polaca".

Decidiu, juntamente com outras colegas de infortúnio, fé e profissão, criar a Sociedade Feminina Religiosa e Beneficente Israelita, aos moldes da congênere mais antiga, a Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita, do Rio de Janeiro. Ao menos poderiam garantir um enterro, ainda que apartadas das lápides de "judeus decentes" e uma descoberta de "matzeiva". Fro Pertha foi presidente da SFRBI entre 1961-3. Afastada por motivos de saúde, recolheu-se a uma casa de repouso. Faleceu pouco tempo depois de nossas breves conversas. Esvaece-me a data exata, pelo que dedigno-me de falar, para não incorrer em erros. "Een mutige un fermitige Geschekt." Uma melancólica e corajosa história, nesta São Paulo de tantas.

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