A rua estreita, de terra, se estendia por não mais de 100 ms, 150, se tanto.
Nas calçadas apenas uma pessoa por vez, duas, nem pensar.
Na esquina com a rua Groenlândia uma pequena Leiteria, Mercearia depois, um pequeno armazém no final. No fim da rua, que se chamava Nevada, agora Taufic Camasmie, ficava a casa do patriarca da família Frederico, como se fosse a casa da fazenda, nas velhas propriedades.
Atrás do armazém, uma pequena vila com uma imponente jabuticabeira, palco e testemunha silenciosa de vorazes ataques para saborear seus frutos e engalfinhadas batalhas de cascas e bagaços.
Nosso universo era imenso. Grandes jardins pareciam cartões de visitas para as casas. Os muros tinham a altura exata de um pequeno impulso, leve apoio com uma das mãos e suave aterrissagem do lado de dentro. Apenas não ficava tão suave quando a dona da casa via seus crisântemos e margaridas sendo ligeiramente amassados. Passada a bronca e relevado o susto, a vida continuava.
O veículo mais presente era a bicicleta. Umas com todos os apetrechos e equipada com o que mais moderno havia, outras, como a minha por exemplo, tinha em seu bagageiro um engradado de leite, que meu pai teimava em amarrar para evitar que eu o tirasse e esquecesse das minhas tarefas diárias. Entregar leite e todas as encomendas que os fregueses faziam por telefone. Se lembro do número? Claro: 8-1646. Não, não esqueci nada, era assim mesmo, 8-1646. Poucos fregueses pagavam na hora. A regra era sempre no início do mês seguinte. Leite Vigor; pão preto da Silesia ou da Falkenburg; e daí um sanduíche com presunto Santo Amaro com queijo tipo prato da Luna. Ou então, está bem, podem falar que estou louco, um belo sanduíche de pão preto (ou então um quentinho pão da Regência, que fechou o ano passado ou retrasado, na Joaquim Antunes) com língua de gato, aquele velho e bom chocolate da Sonksen. Apesar de não achar mais o pão preto e descobrir que não ficou louco por isso, experimente fazer um sanduíche assim e depois me conta.
O chato mesmo era quando uma freguesa pedia 250 gs de chantilly.
Chato porque eu tinha que ficar no balcão enquanto meu pai ia lá para a cozinha com dois vidrinhos de creme de leite, um pouco de açúcar num prato, um garfo e, algum tempo depois voltava com o saborosíssimo chantily (que eu não entendia direito e chamava chantilim).
E lá ia eu fazer outra entrega. Na Rua Polônia, na casa do falecido deputado Emilio Carlos, na casa do embaixador da Suécia, na Rua Luxemburgo, na casa do ministro, do futuro governador, do imigrante alemão, etc.
Ah, mas o que mais eu gostava era ir à casa do senhor Lafer, na esquina da Groenlândia com a Colômbia. Entrava lá dentro de bicicleta e tudo e passeava por toda aquela suntuosidade até chegar à área de serviços onde sempre a governanta ou a cozinheira me aguardava. Quando era a cozinheira era melhor, pois sempre sobrava um bolinho ou rabanada para ir comendo na volta.
Saí de lá em 1973, levado pela mão de uma moça que me enfeitiçara muito tempo antes.
Oficialmente, a primeira linha desta história passa-se em 1957, foi naquela rua e naquele ano que conheci a minha namorada, que tinha 7 anos e eu apenas 10, e que andou de bicicleta por muito tempo junto comigo nessas entregas.
Aliás, se eu soubesse (e pudesse saber) que seria tão feliz com essa menina, teria casado já em 1957 e não esperado como um trouxa até 1973.
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