"Plákt!"

I – Faz mais de meio século que pela primeira vez ouvi aquele som. Como diz a Gramática, trata-se de uma onomatopéia, quer dizer, um "som de coisa, representado pela voz humana": "Plákt!". Meus ouvidos devem tê-lo arquivado quando eu ainda era um nenezinho paulistano, andando de bonde com meus pais. E, por outro lado, a última vez em que tal onomatopeia estalou foi em março de 1968, quando então um último bonde camarão da CMTC tristemente abriu e fechou as portas pela derradeira vez: "Plákt!". Era o som de madeira, vidro e o degrau de ferro, escamoteável, fazia espocar naquelas portas de quatro folhas, que se dobravam duas a duas. Contemporâneos lembram.

II – Sempre gostei dos bondes. E desse som "onomatopaico" devo dele lembrar creio que desde meus cinco anos, moleque, começo dos anos 50. Som do incansável "abrir-e-fechar" no "ir-e-vir" dos paulistanos. Portas dos bondes camarões que, em cada "parada de bonde", acolhiam e despejavam a força de trabalho de Piratininga das chaminés.

III – E de quando o ilustre prefeito Faria Lima comandou aquela última procissão, quero dizer, última viagem, naquela noite (tenebrosa, para aqueles bondes remanescentes) de Santo Amaro, ali eu não estava presente. Mas aquele montão de pessoas que sim, devem ter presenciado o "Plákt!" Mais sombrio que qualquer porta de bonde camarão pudesse emitir – porta aquela que fechou de vez toda uma história paulistana, a epopeia dos bondes.

IV – Bom, eu teria uns dez anos. Eu e meus pais subíamos a José Antônio Coelho, um domingo cedo. A cachorrinha vinha atrás: "Volta! Volta!". Mas qual! Era a determinação dos cães teimosos. Por outro lado, minha mãe, o DNA da também teimosia espanhola no sangue, não quis levar o bichinho de volta: "Deixa que ela volta!". Então, deu no que ia dar.

V – O bonde camarão chegou. Domingos de Morais, lado oposto à inigualável Padaria ABC, uma referência daquela Vila Mariana. A porta dianteira se abriu para nós embarcarmos: "Plákt!". Subimos. A cachorrinha? Ela também quis. O (grosseiro) diligente motorneiro seguiu à risca o mister: fechou! No contrafluxo dos bondes vinham carros. Foi então que o Fordinho inglês Prefect, pretinho, não fez o menor esforço para poupar: "Plunkt, Pláft!". Nem motorneiro, nem motorista dariam a mínima para as lágrimas de um moleque, "dono" do cão (eu). A cachorrinha se contorcia no paralelepípedo cinza – que então ficou vermelho. A mãe bradou: "Nem olha!". Olhei. Fiquei chocado e a seguir odiei. O bonde? Não. Motorneiro e motorista (cruéis). Veio outro cachorrinho para meu quintalzão. Cicatrizou.

VI – Minhas retinas – que bom! – ainda me trazem as imagens dos bondes que alegravam meu coração. Todos eles! E meus neurônios auditivos arquivaram aquela onomatopeia que nunca quero esquecer: "Plákt!". Nos meus sonhos, vez por outra, um bonde camarão me abre as portas: "Plákt!". E eu vou! Um passeio de breves momentos, em que a nostalgia rola sobre trilhos. Estendo-vos o convite, ó contemporâneos de meus 65 aninhos! Vinde a bordo, bancos lustrosos de verniz, porém aconchegantes. Vinde matar a saudade, ó ilustres passageiros! O destino? Escolhei vós, cada qual o que a respectiva saudade impuser…

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