Sim este texto e sobre como e difícil trabalhar no Brasil honestamente. Foi em 1970 eu e minha esposa resolvemos montar uma lanchonete no bairro de Pinheiros. Procuramos um ponto bom de vendas, encontramos na Rua Pedroso de Morais, 359, em frente ao Colégio Fernão Dias, era uma lanchonete falida, chamava-se gatão, onde se reuniam os motoqueiros e etc.; nós compramos a casa e ela ficou seis meses fechada para reforma, abrimos a nova lanchonete com o nome de vila rica, a decoração era muito linda, que acabou saindo na revista Casa e Jardim, era a lanchonete mais linda do bairro de Pinheiros, tudo muito bem decorado, os garçons todos vestidos de libre (pareciam soldados da rainha Elizabeth). Depois de um mês de funcionamento começou o roubo, todos os fiscais, da alimentação, fiscais sanitários, fiscais das músicas, enfim, todos legalizados pela lei.
Tínhamos que dar um dinheiro para todos por mês, apesar de que a minha lanchonete estava rigorosamente dentro da lei, mas eles me avisaram que todos os bares de Pinheiros davam uma cota por mês a todos eles, se nós não entrássemos no esquema poderiam fechar a minha lanchonete, na ocasião o meu irmão mais velho era agente do Dops, era época da ditadura militar. Eu falei para ele dos fiscais que estavam me achacando dinheiro todo mês, ele mandou uma viatura na lanchonete falar com os fiscais, eles vinham todo o fim do mês buscar o dinheiro, os fiscais ficaram com medo e não vieram mais cobrar as propinas.
Quando eu pensei que o pesadelo tinha acabado, em um sábado à noite, a casa estava repleta de clientes. Entraram três assaltantes e roubaram tudo: dinheiro, relógio, bolsas, etc. O dono da sorveteria era meu vizinho na Pedroso de Moraes, e falou que foi os fiscais que mandaram assaltar a minha lanchonete, porque eu parei de dar o dinheiro todos os meses, fui na delegacia na Rua Lacerda Franco, em Pinheiros, falei para o delegado sobre os fiscais, ele mandou que uma viatura da polícia ficasse todas as noites na porta da lanchonete par evitar novos assaltos, mas ficou pior a emenda, eu tinha que dar todas as noites lanches, bebidas, etc. para os policias, depois de uma semana pedi que todos eles fossem embora porque o prejuízo estava ficando maior do que a quantidade que os ladrões tinham roubado, foram os empregados e chapeiros, que roubavam salsichas, carnes, cigarros, etc. o gerente era o principal ladrão, era meu amigo na juventude, enfim, depois de dois anos de sofrimentos consegui vender a lanchonete para o grupo Pappis lanches, onde fiz uma grande amizade com o novo dono e ele me disse: “sai desse ramo que é um ramo de bandidos, eu só venci porque jogo duro com os empregados, todos só querem roubar, ninguém trabalha honestamente”. Ele disse uma frase que eu nunca mais esqueci: queira ou não somos todos desonestos, acredite.
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