Corriam os anos setenta, mais precisamente o ano de 1978. São Paulo já era uma metrópole cosmopolita. Trânsito inaceitável. A expressão que corria solta sobre o tema era: "São Paulo não pode parar, o trânsito, infelizmente já parou…". Aliás, ainda hoje essa expressão é largamente usada e, para tristeza dos "videntes", São Paulo continua andando. Tem horas que ela se arrasta em congestionamentos de 8, 10 ou mais quilômetros, mas se arrastando ou não ela não para. Está viva e vibrante. O trânsito não era o motivo deste texto quando me dispus a escrever, então, voltemos ao tema principal desta crônica.
A Avenida 23 de Maio, pujante, já era a principal artéria de ligação entre o centro e o bairro do Aeroporto. Lembro-me que tive, no passado, motivos de sobejo para desgostar-me da sua construção. Entre eles, o principal era o nome escolhido. A data de 23 de Maio, para mim, era apenas e tão somente o dia comemorativo do aniversário de meu amigo Zilando e eu acreditava ter sido escolhida para nomear a avenida em detrimento ao dia do meu aniversário, dia 26 de maio. Só tempos depois fiquei sabendo que este nome tinha sido escolhido para homenagear a morte dos estudantes Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo, mártires da Revolução de 32.
Muito bem, quem trafegava com certa assiduidade por essa avenida começou a notar que, do lado esquerdo dela, para quem seguia em sentido ao Parque do Ibirapuera, pouco depois do viaduto da Rua Tutoia, um grande canteiro de obras havia se instalado. Novo arranha-céu estaria sendo lançado? O que seria ali construído? Esses questionamentos foram sendo respondidos no dia a dia. Por incrível que pudesse parecer, ali estava sendo construída uma caravela. Certo, uma imensa caravela, com todas as formas idênticas às vistas nos livros de História do Brasil, nas lições do Descobrimento da América e do Descobrimento do Brasil.
Novas questões foram levantadas: O que iria fazer uma caravela naquele espaço de terra sem águas cabíveis para navegar? Será que a caravela estava sendo ali construída para depois ser levada ao lago do Parque do Ibirapuera, único espaço com águas suficientes para aceitá-la? Depois de algum tempo, tais questionamentos foram respondidos. Em um empreendimento fabuloso, próprio da cidade de São Paulo, essa caravela foi construída para receber as instalações de um finíssimo restaurante.
A inauguração foi cheia de pompas e a frequência, depois da inauguração, não era viável às classes mais baixas. Era preciso ter "bala na agulha" para atravessar o portal daquele restaurante. Eu, já casado na época, não tinha condições de ali fazer uma incursão gastronômica. Tenho algumas memórias desse restaurante, mas por serem dolorosas e privadíssimas decidi não escancará-las. Elas continuarão a fazer parte dos meus segredos.
O modismo do Caravelas foi se extinguindo e, um certo dia, suas portas se fecharam para sempre. Em novembro de 1984, atendendo ao novo modismo da Paulicéia, depois de um investimento de quase meio milhão de dólares, no dia 7 de novembro, foi inaugurada a Latitude 3001, danceteria que oferecia a seus frequentadores, no primeiro e segundo andares, com pistas de dança, conjuntos, hits da época apresentados em palco suspenso, restaurante e pizzaria, bosque, lago artificial, salão de jogos. Em certos momentos, piratas apareciam em sucessivos duelos. Enfim, o "new wave" e o roque brasileiro mandavam na casa e, como não era essa a minha praia, nunca me interessei em frequentar essa casa. Mas, a memória tinha de ser registrada e, cutucado por leitores, cumpri minha obrigação.
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