Mais uma história que deve sua narrativa a uma coincidência, ou sincronicidade, para contentar meus colegas junguianos. Vinha subindo a Avenida Brigadeiro Luís Antônio quando, diante de uma vidraçaria, vi fotos antigas de São Paulo. Gáudio que eu e meu amigo Estanislav Rybczynski, que tem belas narrativas neste portal, compartilhamos, parei para admirá-las. Embevecido com imagens de priscas eras, de pão entregue em carrinhos, leite em garrafa, crianças de calças curtas, subitamente percebo um senhor ao meu lado, com lágrimas a marejar-lhe os olhos. Indaguei à dona da loja, velha conhecida minha, o preço de uma foto que, notava-se, emocionara-o mais do que as demais, a julgar pelo modo como olhava-a fixamente. Comprei duas fac-símiles e presenteei-o com uma.
Após olhar-me com uma expressão a meio caminho entre o agradecimento e a descrença de um ato desinteressado, contou-me o motivo de a fotografia em questão ter um significado especial para ele. Os avós maternos se conheceram em um bonde da linha 1139, que aos azos da década de 40 do passado século XX, fazia o trajeto Ipiranga-Centro de São Paulo. O avô, profundo conhecedor de fumo de corda, como todo interiorano paulista que se digne das origens camponesas, trabalhava a uma tabacaria, a "Cigarros Yolanda", à Rua Direita.
A avó fazia faxina em um prédio das imediações. O avô, que ao vê-la "linda, de branco, em vestidinho de chita" – segundo o nosso narrador – dispôs-se a pagar-lhe o bônus (passagem), de cujo nome provém a palavra "bonde", que em outras línguas é tram, tramway ou tramvía, passando a cortejá-la nos dias que se seguiram. Após curto noivado, em uma cerimônia simples à capela de Nossa Senhora dos Remédios, tomaram da taça de Himeneu. Anos mais tarde, o segundo filho, primeira "donzela" da família: a mãe de nosso involuntariamente lacrimoso narrador. A foto retrata, em graduações de preto e branco, a Rua Direita, à década de 40. O primeiro bonde de uma fila de três destes vetustos veículos de transporte coletivo é da linha 1139. Algo que meu interlocutor talvez não saiba: a dona da vidraçaria em que comprei a foto tem uma filha, de nome Iolanda. Coincidência? Quem sabe. Mais uma história da História da São Paulo de tantas histórias.
E-mail: [email protected]