Eu ainda me lembro: na minha São Paulo dos anos 70 a moçada se entusiasmava e se identificava profundamente com uma propaganda . O jingle mexia profundamente com o nosso imaginário, com os cantos e encantos da juventude: “liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar do jeito que quiser…não usa quem não quer". E o anúncio continuava afirmando uma outra inovação cheia de ineditismo para aquele tempo: "desbota e perde o vinco".
Algumas vezes essa musiquinha me vinha à mente quando eu caminhava pela Paulista. Especialmente quando o meu pai me levou para conhecer o Conjunto Nacional. Era um domingo de uma garoa poética que me banhou a alma por inteiro: eu começava a me sentir importante quando me deparei com uma parede espelhada, sentindo o prazer infinito de ir conquistando identidade própria.
O sonho da calça velha batia de frente com o padrão formal do homem engravatado, sisudo, sem criatividade e de humor inibido. Era uma afronta social, à rigidez dos costumes, a todas as formas de tradicionalismo, de obediência e submissão. Era a liberdade contra o pecado que a Igreja Velha tanto apregoava e nos pesava dolorosamente no íntimo. A calça azul e desbotada era o retrato inconteste de vida urgente, de se tecer a primavera com as próprias mãos, na sua absoluta explosão de cores, com iluminação, ousadia e graça. Era a hora do basta! Radicalmente chega! Era necessário um novo tempo, mais musical, destemido e desinibido, capaz de aguçar os sentimentos com toda a intensidade e calor que só o jovem sabe dizer.
Eu sempre tive cuidado com as minhas calças velhas. Era como se elas não pudessem acabar, porque, junto delas, algum sonho poderia estar a caminho do velório e isso seria insuportável demais para um coração carregado de sensibilidade e tão cheio de saudosismo. Nunca nostalgia. Eu descobri, de pronto, que a calça velha poderia ser o real símbolo de abertura de portas para um mudo mais feliz, libertário, consagrando o "É proibido proibir" que o Maio Francês de 1968 deixava jorrar amorosamente pelo mundo. E mais: pude descobrir agora, com mais de meio século de existência, que o sabor da liberdade é indizível. A alma voa porque os pés têm asas e a gente passa a enxergar o mundo em várias dimensões e sempre com cara de felicidade, com um sorriso que se recusa a abandonar os lábios.
Sensação de dever cumprido depois de três décadas em sala de aula. A responsabilidade eterna, planos de aula, programas, planejamentos, reuniões, atendimento aos pais, palestras, provas, trabalhos, seminários, atualização constante…tudo ao mesmo tempo, com a cobrança de uma perfeição absurda e de negação do cansaço. Uma patologia sem conta produzida em escala industrial, fabricada pela cobrança constante e neurótica, impossível e intolerável para qualquer ser vivente.
Agora chega! Consegui construir a liberdade, me ver gente, tornar-me pessoa com vontade própria, sem a obrigatoriedade de a toda hora compreender e perdoar. Agora posso assumir as possibilidades humanas de simplesmente errar e nem precisar pagar tão caro por isso. Passei a construir um horário de trabalho para uma pessoa sem neurose e com um imenso prazer de receber visitas, pois antes a sensação era de estar sempre devendo alguma coisa, alguma tarefa e que não poderia – jamais – ser postergada.
Há uma década eu vinha construindo, no imaginário, esse momento: abri meu consultório de terapias naturais, ofereço preços especiais para os professores, meus iguais. E isso por um misto de compreensão e solidariedade pela causa eterna de doação. Triunfalmente tenho praticado “tai-chi” e me equilibro, encontrando finalmente meu eixo e não apenas valorizando o centro do outro. Há 30 anos sonhava praticar essa arte milenar…e o compromisso jamais permitiu. Estou no caminho do resgate cultural dos antepassados e produzo peças cerâmicas. E vou além, muito além, na arte de viver em paz pela consciência do dever cumprido…
Mas a alma não foi pequena e tudo isso valeu a pena porque recebi como recompensa muitos olhares com brilho lindo, agradecimentos em forma de gestos, cartas, lembranças, abraços. Recebi carinho, telefonemas, e-mails com emoções e respeito.
Sou grata infinitamente a todos, de coração inteiro, mesmo aos mais grosseiros e ingratos. E peço desculpas sinceras para aqueles que não corrigi, que deixei que se enganassem por meio da agressividade e do deboche.
Mas agora o tempo é meu, para eu dispor da vida com outra bagagem de sonhos e esperanças, em uma dimensão maior, dentro da mais incrível e bela possibilidade que a vida nos dá: viver em liberdade com a minha calça velha, azul e desbotada. Aquela mesma musiquinha que eu mentalmente cantarolava na minha Avenida Paulista e pensava nela na saída do Conjunto Nacional.
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