Em 1958, fiquei sabendo que a Sears Roebuck iria instalar uma loja em Campinas. Assim que abriram inscrições para trabalho nos mais diversos setores da loja, coloquei meu terno (único) e me apresentei na loja, onde havia uma fila de pretendentes. Dona Marina, chefe do pessoal, estava na porta da loja observando os candidatos e assim que me viu, veio até mim e perguntou qual era a área pretendida, no que respondi que minha preferência seria a de rádio e televisão, pois já tinha prática no assunto, por ter sido um dos primeiros vendedores de TV no Brasil, aos 13 anos, trabalhando no Mappin em São Paulo.
Ela notou meu entusiasmo na resposta e solicitou que eu fosse até o depto. pessoal, pois eu já estava contratado! A alegria foi grande, pois nos últimos dois anos eu andava meio para baixo, em virtude de um noivado terminado e ainda não completamente assimilado (coisas do amor). Nesses dois anos, pasmem, fiz um cursinho de enfermagem muito simples e fui trabalhar na Assistência Pública Municipal de Campinas como estagiário. Gostaram da minha dedicação e responsabilidade, tendo então sido convidado a me efetivar no emprego, momento em que me neguei a aceitar, pois as condições de trabalho eram péssimas!
A autoclave não funcionava, obrigando-nos a ferver água em uma panela para esterilizar os instrumentos, seringas de vidro e agulhas. Nessa época um senhor que trabalhava como empresário de circos me convidou a trabalhar com ele e lá fui eu viajar com o Circo Real de Bengala, companhia cubana, cujo proprietário era D. Delphim Miranda. No início eu fui designado a fazer o pagamento dos artistas, toda segunda-feira às 10h da manhã.
Ali naquele ambiente, consegui fazer grandes amizades, como, por exemplo, D. Ramón Ferroni, exímio ciclista, juntamente com sua esposa dona Eldrita, que também aprendeu a trabalhar com bicicletas. Um certo dia o trapezista do circo D. Niño me convidou para fazer uma experiência no trapézio, pois achava que meu porte seria de um perfeito aparador…
Gostei dos primeiros treinamentos, mas confesso, embora gostasse muito de circo, não era minha intenção ser artista… Vale lembrar Debbie, “elefoa” muito minha amiga, que sempre procurava balas em meus bolsos. Havia também alguns animais selvagens como a África, uma leoa com dois filhotes que se afeiçoou a mim e ficamos grandes amigos. Como? Simples: eu pedi para o encarregado de alimentar os animais para me deixar fazer o serviço, ficando então muito fácil a aproximação! Cheguei até a ser lambido em minha face pelo enorme animal! Eu colocava os dois braços através da jaula e a abraçava, sem problema algum. Quem não gostava era o domador, D. Júlio, que me chamava a atenção por brincar com os animais.
Fiquei apenas três meses viajando com o circo, pois meu pai ficou muito triste de saber que eu estava trabalhando em um circo… Continuei fazendo bicos, ora como eletricista, ora como decorador e assim nunca ficava sem dinheiro. Bem, continuando então a história da Sears, inauguramos a loja e foi um sucesso! Centenas de pessoas visitando-nos e comprando de tudo que havia na loja. Vale lembrar o lema da empresa: “Sua satisfação garantida ou seu dinheiro de volta!”.
Na época eu vendia os televisores durante o dia e a noite ia para o depósito ajudar o técnico a instalar os conversores de UHF Standard Coil para entregá-los no dia seguinte aos felizes compradores! Um certo dia o depto. de display colocou uma plataforma giratória de 1,80m com um televisor em cima, só que desligado. Imediatamente comecei a trabalhar e com um mínimo de recursos fiz o televisor permanecer funcionando e girando. O sucesso foi grande e a minha criatividade maior ainda! Comprei umas folhas de cartolina preta e com elas fiz uma capa para um aspirador de pó, em forma de foca que soprando pela traseira formava um cone de ar que fazia flutuar uma bola de vinil de 40cm! Não satisfeito, coloquei um manequim ao lado da plataforma, segurando um aro de arame enfeitado com serpentina, de tal forma que a bola passava por dentro do aro!
Foi um furor! O engraçado eram os comentários das dezenas de pessoas que do lado de fora da vitrine arranjavam explicações de como o fato acontecia. Fios invisíveis, ímãs em cima e em baixo etc. Fiquei na Sears por pouco mais de um ano, quando fui convidado para gerenciar uma empresa de pequeno porte em São Paulo, bem, mas esta é uma outra história!
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