Quatro amigos paulistanos

Meu pai como filósofo que era, sempre dizia que o homem não tem amigos, tem conhecidos…

Talvez premido pela experiência de vida que teve, tal preceito tenha sido válido para ele e que a nós seus filhos quis transmitir.

Retroagindo aos tempos de infância e mocidade e através de um álbum de fotografias já esmaecido pelo passar dos anos, encontrei fotos daqueles que considero meus verdadeiros amigos.

Em ordem alfabética:

Carlos Eli:
Nos conhecemos e amigos ficamos quando fazíamos o ginásio aqui no Brooklin. Seus pais eram "oriundi" e como tal, ele sempre foi (é) um falante… Pessoa afável, educada e elegante, mas sempre "nervosinho e irritado". Morava aqui nas imediações da Vila Carmen, próximo a um riacho. Certa ocasião um vizinho, fez uma espécie de dique e as águas represadas em parte, invadiram o quintal da casa em que morava. Reclamou, mas não teve sucesso. Pois bem, comprou várias "bananas de dinamite" (na época era permitido) e se preparava para explodir o tal dique e, por mero acaso, ao visitá-lo coincidiu vê-lo preparando o artefato. A muito custo foi dissuadido a abandonar a ideia. Reclamou na Prefeitura e o assunto foi resolvido. Tive pouco tempo atrás o prazer de ser surpreendido por uma visita dele no local onde trabalho, depois de décadas sem nos contatarmos.Hoje está morando no Jabaquara.

Hermann – "Germano":
Austríaco, cujos pais após a Segunda Guerra, emigraram para São Paulo. Falava mal o português e teve muitas dificuldades na escola. Sua mãe foi locutora em uma rádio e seu pai era torneiro mecânico profissão pela qual ele optou. Certa ocasião, na casa dele estávamos jogando baralho "a dinheiro" com os pais dele e estávamos perdendo. Aí a mãe falava com o pai, mas em outro idioma sem ser o alemão e ele não entendia; aí deu um "chilique" e ele jogou as cartas para o ar e falou:
– “Vocês estão roubando, não jogo mais, vamos embora Cidéme (como ele pronunciava)!” Não teve jeito, não quis mais jogar. Hoje mora nos Estados Unidos

Joaquim: Tinha (tem) três irmãs muito bonitas e ficava uma "arara" quando falavam delas. Era considerado o mais "destemido" da turma aprontava cada uma que até assustava a gente e certa ocasião caiu de uma árvore e um toco entrou na virilha e por pouco… Foi socorrido pelos nossos pais que o levaram ao hospital. Outra ocasião apareceu com um cavalo que disse que "achou", mas era do portuga e depois foi devolvido. Sua bicicleta tinha várias antenas de carro… Não é necessário falar onde ele as "achava". Sempre nos visitamos para curtir um churrasquinho e cervejinhas.Mora aqui na Chácara Flora, em Santo Amaro.

Paulo Silva:
Paulão, Silva, assim era (é) chamado. Morava no Brooklin ao lado do Meninópolis do padre Carlos. Foi "contratado" para ajudar na Igreja e fazer serviços externos de office-boy. Certa ocasião, bem antes da missa dominical iniciar, ele ficou dentro do confessionário e umas meninas que iam comungar foram confessar seus "pecados" e ele bancou o padre e ouvia os relatos. Engrossando a voz, mandava rezar tantas Aves-Marias, Padre Nossos… Depois nos contava tudo e caíamos na gargalhada. Padre Carlos soube e o demitiu na hora dizendo que ele iria para o Inferno… Mora em Atibaia.

Meu pai, onde estiver e se puder ler, por certo a de lembrar de todos eles e talvez dizer:
– “Filho, os conheci e sei que todos foram (são) pessoas de boa índole, corretas e leais, e se você algum dia delas precisares, não tenho dúvidas que poderás contar com as mesmas, realmente são seu amigos…"
Mora na Eternidade.

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