Um anjo

Darcy era a menina podre de rica, da casa grande, palacete, lá na esquina, no caminho do Parque da Aclimação, aqui de São Paulo. Vez ou outra passava no portão daquele casarão, segurando vela e de mãos dadas com tia Adelita e o noivo, o José.

Que linda menina! Encantou-se tia Adelita quando a viu pela primeira vez. “Eu me chamo Darcy”, disse a menina lá do lado de dentro do portão de ferro onde estava também o tronco da árvore que se debruçava para a calçada. Um chorão, explicou José.

Depois desse dia, a menina ficava com o rosto grudado no portão e sorria quando passavam. Além do portão, uma alameda serpenteava pelo gramado terminando no casarão branco, janelas azuis.

Certa tarde fria, de junho, o nariz vermelho, olhou para o vestido da menina quando tia Adelita apontou para o mesmo, encantada. O portão estava aberto e lá dentro havia um carro negro, luxuoso. Aquela ali foi trazida por uma empregada, vinha linda, cabelos loiros caindo em sedosos cachos, como se de seda fossem. O azul bem claro dos olhos repetia-se em um vestido azul, de veludo cristal, que fez tia Adelita babar. Morta de inveja! Cutucou José, rindo delas.

Tia Adelita copiou o vestido azul de cabeça, fez um molde, papel pardo de embrulho. Este molde ficou na camiseira até o dia em que passou o turco, da prestação. Na mala daquele ali não tinha veludo azul, tinha vermelho forte, feito sangue. A avó cortou e costurou, tia Adelita chuleou inteiro e a mãe fez café ralo, sem açúcar e pediu que cortasse o saco de açúcar, cinco quilos, azul escuro, em tiras finas.

Passando um algodão embebido em café, a mãe enrolou as mechas do cabelo e as retorceu no papel, amarrando em papelotes. Odiava papelotes, dormia mal, a cabeça encaroçada, o travesseiro doendo, manchado, cheirando a café. Tirou retrato dentro daquele vestido depois que o fotógrafo, lá do largo do Cambuci, acendeu umas luzes fortes e colocou sua mão direita na alça de uma cesta cheia de flores de papel crepom. Com a esquerda pediu-lhe que levantasse a ponta da saia e desse modo o vestido derramou-se em pregas vermelhas.

Domingo, depois que ter tirado o retrato, foi passear com tia Adelita e o José no jardim da Aclimação. Na volta, ao passarem pelo portão da Darcy, ouviram a mãe da menina gritando feito um bicho. Rasgava e atirava pela janela todas as roupas daquela ali, debatendo-se feito uma leoa. O pai, que chorava copiosamente balançando em um enorme lenço branco seu silencioso adeus, correu junto com outros homens e a arrancaram daquela janela azul.

A rua inteira estava amontoada do lado de fora do portão de ferro. Tifo, alertaram as autoridades sanitárias quando colocaram uma bandeira amarela naquele portão. Só ficou um pedaço de veludo azul, muito claro, rolando rua abaixo, rua acima, carregado pelo vento. Parecia um pedaço azul de céu que tinha vindo saber daquele seu anjo que a terra engolira por engano.

Durante muito tempo, assim que entrava em uma igreja, com a desculpa de benzer-se, zanzava conferindo anjos e altares, à procura da Darcy, que tia Adelita dissera que agora era um anjo. Branco, loiro, de olhos azuis? Então seria anjo desses que saem em procissões e que desaparecem no andar pelas ruas, concluiu e desistiu de procurar.

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