Sou um sujeito feliz. Como todo mundo, passei por momentos difíceis na vida, mas como tristeza não paga dívida, procuro dividir as alegrias da minha vida, que é bem melhor. Posso dizer que sou aquele tipo de pessoa que pode perder o amigo, mas que não perde a piada, de jeito nenhum.
Muito bem. Quando eu morava na Parada Inglesa, lá na Av. Alvaro Machado Pedrosa, a duas casas após a minha morava um grande amigo meu, o Paulão. Eu tenho dois filhos que nasceram seguidinhos um do outro. O Tiago que nasceu em março de 1982 e o Thomaz que nasceu em maio de 1983. O Paulão tinha um filho que era contemporâneo dos meus, e que também tinha o nome começado por T era o Tadeu, que tinha nascido em setembro de 1982. Os três eram por demais ligados e também muito peraltas. Ocorre que eu sou branco e a mãe dos meus filhos é loira. Enquanto que o Paulo era negro e a mulher dele mulata. Logo meus meninos são brancos, bem brancos e o Tadeu mulato, bem mulato. A confiança que tínhamos uns nos outros era total, se meus meninos estavam com o Paulo eu estava tranquilo e se o Tadeu estava comigo e recíproca era verdadeira.
Um belo dia, quando os três estavam aí pela casa dos seis ou sete anos, eu fui com o trio em um sacolão que havia lá na Av. Guapira, já quase no Jaçanã, e os três estavam infernizando o sacolão inteiro de tal forma que uma hora eu perdi a paciência e tranquei os três dentro de uma “Caravan” que eu tinha na época, e como estava muito calor eu abri o teto solar da mesma. Então, de dentro do sacolão, quem olhava para o estacionamento via aqueles três rostos lindos saindo pelo teto solar do carro: dois brancos e um negro.
Quando eu estava passando as compras, uma senhora atrás de mim comentou com a amiga: “Meu Deus, como aquelas crianças são peraltas, tenho dó dos pais delas”. Eu ouvi e disse: “É senhora só eu sei como sofro”. Ela ficou toda sem jeito e disse que não estava falando por mal, só tinha feito um comentário e eu disse que tudo bem que havia entendido. Então ela fez a pergunta fatídica: “Mas os três são seus?” E eu, já percebendo o que passava na cabeça dela respondi: "Sim, os três são meus filhos, filhos naturais. Por quê?" Ela ficou mais sem jeito ainda e disse: "Nada não, nada não". Mas deve ter pensado: “Tem pai que é cego”.
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