Nasci em uma casa que sempre teve muita fartura. O meu pai sempre teve condições de nos dar uma vida bastante folgada, posso dizer até que lá na Parada Inglesa nossa família era uma das que mais posses tinha. Muito bem, no Natal de 1965, ainda no mês de novembro, o meu pai e a minha mãe começaram a sair todo sábado e a chegar em casa com várias sacolas e muitos embrulhos. Curiosos, eu e meus irmãos procuramos saber o que era aquilo tudo, mas a minha mãe apenas disse que era coisa dela e do meu pai. Isto bastava para a gente ficar de bico calado e não se arvorar a perguntar mais nada.
Quando dizia:
– "É coisa minha e do seu pai."
Acabou, não se falava mais nada. E assim a coisa foi até o último sábado antes do Natal. Neste dia, logo cedinho, mais ou menos por volta das 8h da manhã, o táxi do seu Sílvio encostou e buzinou em frente à minha casa. Naquele tempo, era muito difícil as pessoas terem carro próprio, mesmo um homem de posses como meu pai, portanto, quando havia um evento especial, meu pai alugava o táxi do seu Sílvio e quando isso acontecia a gente já sabia que a coisa era importante e especial.
Muito bem, nesta época eu tinha 15 anos, meu irmão mais velho 20 e o mais novo 10. Meu pai nos acordou, e disse:
– “Hoje vocês vão aprender o verdadeiro significado do Natal."
Pôs todos os embrulhos dentro do porta-malas do táxi, não coube tudo, teve que ir um montão dentro do carro no nosso colo, sentou na frente e nós três atrás e fomos lá na entrada da favela do Jardim Cabuçu, na divisa entre São Paulo e Guarulhos, que naquele tempo era um lugar muito pobre. Paramos na entrada da favela e toda criança que aparecia ele dava um pacotinho. Se fosse menino o pacote era azul, menina vermelho e os brancos era para criança muito pequena. Logo se formou uma algazarra total, apareceu criança de todo lado e, infelizmente, meu pai dimensionou mal e algumas ficaram sem presente, mas a grande maioria levou alguma coisinha. Quando se acabaram os mimos, meu pai nos pôs de volta no carro, virou para trás e disse:
– "Hoje vocês aprenderam o que realmente é o Natal. Não basta apenas dizer feliz Natal, tem que compartilhar dar ao próximo o que você quer para si".
E não falou mais nada. E se ele não disse, eu também não digo.
Feliz Natal a todos vocês.
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