Divagações

Era um menino ainda, moleque apenas. Seguiu distraído, em cisma, avançou muito, foi longe de casa. Atravessou a ponte de madeira podre. De repente prendeu-lhe a atenção um murmurar de vozes. Seguindo uma trilha estreita da Rua Carijó, depois de atravessar a linha do trem, chegou à bifurcação da Rua Guaicurus. Parou assombrado ante o cenário majestoso que a pouca distância se lhe adregou. Uma orgia de poças d'água em um deboche de cores que excedia e que fatigava a imaginação. O sol da manhã recém-acordada dardejava feixes luminosos por entre a folhagem das árvores e mosqueava o solo pardo de reflexos verdejantes. Um caracará bronzeado soltou de uma caneleira seu sibilo intercadente, perdido na amplidão da várzea do Tietê.

Era a Rua Guaicurus no bairro da Lapa. A história começa ali, depois da chuva do dia anterior no escorregador de paralelepípedos molhado, entre o ruído dos ônibus e caminhões e dos bondes que deslizam nos trilhos em um constante vai e vem. Naqueles tempos (1951), na cidade de São Paulo, as casas ainda tinham pomar; as laranjeiras pendiam os grelos em um desfalecimento úmido; as ameixeiras, as mangueiras, o enorme abacateiro, os pessegueiros viçavam muito lustrosos sobre a luz do sol. E nesse cenário de tapeçaria, adentrou o único banco existente em toda a rua.

Seguiu patinando pela calçada esburacada de sedimento enlameado de detritos terrosos com restos de vegetação folhosa espalhados no chão; entrou na agência do Banco Nacional Imobiliário na Rua Guaicurus, 670. Ali era o seu primeiro emprego, como office-boy. A agência era nova, recém-inaugurada, em um prédio térreo, pequeno, aconchegante, de construção recente, com uma porta de ferro pintada de cinza com duas argolas douradas enfeitando a entrada. No fundo, há uma cerca de arame farpado com um portão de madeira de ripa de pinho rosa e uma tramela improvisada como trinco.

Rente ao capim limão passa as ferrovias da Sorocabana e da Santos a Jundiaí, ambas correndo no risco do traçado paralelo, onde os animais costumam pastar nas margens. Se eles tinham o desejo de beber água era só seguir por uma trilha estreita, no fundo de uma barroca, onde erguia-se um paredão de pedra de rocha negra, musgoso, talhado a pique e por sobre ele atirava-se um jorro d'água de nascente. E nesse cenário do São Paulo ainda provinciano, bucólico, pacato, campestre, ingênuo e puro e que todas as manhãs chegava ao banco, já trabalhando, espanando o balcão, os móveis, varria a agência, arrumava os papéis dispostos sobre a mesa do contador para início do expediente de logo mais às dez horas.

Depois, todo um longo dia a servir no atendimento dos clientes, entre o tédio e a grosseria do gerente, ganhando uma ninharia de salário dando apenas para comprar os alimentos básicos, que pareciam ser dados como esmola. Ah! O Freitas, do banco, era o único recepcionista-caixa existente, ninguém mais para atender o público. Trabalhava calçando uma chinela velha nos pés. O Walter, contador da agência, estava diante da mesa carregada de papéis onde reluzia uma moderna máquina de escrever. Nessas abluções do espírito na purificação do rito presente, ele via do outro lado da rua a pensão barata e o homem em mangas de camisa e descalço varrendo preguiçosamente a entrada, com a cabeça derreada e um olho fechado para evitar a fumaça do cigarro que lhe rolava úmido, nos beiços carnudos. – É por aqui – disse, – a terceira porta a direita olhando para o homem que ia em sua direção. E o homem enristando a vassoura indicou uma passagem estreita ao lado da escada de cimento que levava aos pavimentos superiores, onde ficam os dormitórios.

Seguindo com os olhos, o menino boy olhava todas as janelas surpreendendo interiores modestos, camas desfeitas, armários com as portas abertas, malas sobre os mesmos e roupas espalhadas pelos cantos. Em um quarto, um estudante em camisa, curvado diante do lavatório de ferro, fazia o laço da gravata ao espelho enquanto outro, de óculos de garrafa, ia e vinha alarmando o silêncio com um vozeirão de barítono tormentoso à medida que espanava com fúria o casaco que segurava nas mãos suspenso pela gola.

Um apito soou gravemente em notas prolongadas, passou rolando pelos ares lúcidos do meio-dia e se perdeu ao longo da várzea do Tietê. Os operários, de marmita de alumínio em punho, sentados debaixo da marquise da fábrica, punham-se a comer freneticamente o arroz com caldo de feijão, uma salada de alface tenra e um ovo frito. Do outro lado da rua, um largo portão de ferro sobre trilhos abria-se para o pátio interno ladrilhado que dava ingresso aos escritórios do Mate Leão. Da porta da agência do banco avistava os fundos das casas vizinhas, janelas abertas à luz do sol; as chaminés da Vidraria Santa Marina fumegando na fusão do vidro; na Vila Vitória de fronte da vidraria erguia-se o casario dos operários com as mulheres debruçadas no parapeito das janelas, falavam a outras mulheres, noutras janelas dos quintais do cortiço; e de instante a instante, cortava fundamentalmente o silêncio, o grito de uma araponga de som metálico cruzando as várzeas.

São Paulo, naquela região da Lapa, predominava os teares da fábrica das meias Sarandy de seda, da Vidraria Santa Marina, da fábrica de móveis patente Faixa Azul, da metalúrgica Fiel, entre outros; ali na Rua Guaicurus, de frente para a rua erguia-se o Cine São Carlos e no centro do canteiro central da rua alçava as majestosas árvores de folhagem vistosa fazendo uma arcada rústica dando passagem apenas para os fios de eletricidade dos bondes. No canto da calçada havia um banco forrado de tabuinhas com assento mosaico que escaldava ao sol do meio-dia junto ao muro fronteiro do cinema, resguardado pela ramada frondosa de um jacarandá encobrindo a figura no alto do prédio de um leão insinuado entre hastes derreadas, enferrujadas, enegrecido pelas intempéries. Ah! O moleque sentiu saudades daquele tempo! Das margens das ferrovias sobre o azul macio do céu, aonde as garças peregrinas vindas das lagoas do Limão nas arroxeadas tardes melancólicas atravessavam o céu sobre a várzea do Tietê; aqui em baixo, ao som da flauta pastoril do homem do realejo que passava todos os dias pela Rua Guaicurus tirando papeizinhos coloridos da sorte, fazia a alegria das “moiçolas” casadoiras.

Está na hora do office-boy pegar o movimento do dia da agência e ir entregar os cheques da compensação, o dinheiro em notas de um, cinco, dez, vinte, cinquenta e cem cruzeiros, todos embalados em montes, colocados na pasta de couro preto a ser enviados de bonde para a matriz na Rua XV de Novembro no centro da cidade. E lá ia o menino ainda, 14 anos apenas, no estribo do bonde número 35 com destino a Praça do Correio. – Aqui está o dinheiro para você jantar. E o contador passou uma nota de cinco cruzeiros.

Na Praça da Sé, o bar era modesto. A sopa era dourada e rescendia. Outro prato sobre a superfície tão dignamente contida em uma tigela de porcelana onde havia uma fritada de ovo, um triângulo de louro incrustado nas bordas, tendo no vértice uma gorda azeitona, entre folhas tenras de alface ladeadas por duas lascas de fiambre de uma cor de rosa macia; um pãozinho francês, um copo de refrigerante e nada mais. Tudo isso por cinco cruzeiros. Era assim todos os dias. Escolhi essa rua de São Paulo, apertada e sombria, porém cativante. Depois de todo esse tempo, que tesouro possuo após tão árduo embate? Triste, triste foi a nossa vida posto que, de longe, como um raio de sol atravessamos as nuvens tempestuosas do tempo, e conseguimos chegar ao final da jornada. Do tempo passado só nos restou a esperança da aventura finda no perder dos anos e alguns louros na fronte e os meus cabelos brancos.

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