A Gabriela do Itaim

Jorge Amado criou a Gabriela da Bahia. Deu o codinome de Gabriela Cravo e Canela. Aqui em São Paulo muitas Gabrielas devem existir. Uma delas eu conheci. Trata-se da Gabriela do Itaim. Eu não a conhecia até que um dia onde moro atualmente ela foi conversar com minha esposa e disse que me conhecia desde criança, do bairro do Itaim onde morávamos. Daí tive uma longa conversa com ela cujo texto vai abaixo.
Trata-se de dona Gabriela Ana de Jesus, 68 anos. Hoje apenas Gabriela de Jesus Ribeiro, nome que ficou registrado depois do casamento com Nicolau Ribeiro Filho. Hoje aos 68 anos, bastante lúcida e com boa memória contou vários casos de sua infância. Daí para frente vai, ela relatando sua passagem pelo bairro do Itaim Bibi.

Morávamos na Rua Amélia, perto da Rua Tenente Negrão. Tivemos que sair de lá porque o Hospital São Luiz comprou aquela parte que ficava nos fundos do hospital. Ali perto tinha a farmácia do senhor Bayer. A gente chamava de doutor Bayer. Depois, fomos morar na Rua João Cachoeira, na época numero 20, quase esquina da Rua do Porto. Lembro-me bem, fomos morar em frente da casa da dona Rosinha, mãe do Tu, Fabio, Agostinho, Luiza e Norma e Ana, com quem tinha mais afinidade.
A casa da dona Rosinha foi a que resistiu o passar do tempo, quando a Rua João Cachoeira passou a ser a rua da moda. Esta casa que esteve abandonada devido a uma questão de inventario hoje é um estacionamento, como ocorre por todo canto da cidade, onde houver uma casa abandonada ou terreno vazio.
O terreno era grande como a maioria dos terrenos, tinha nos fundos tinha o poço e a gente puxava água na base da corda e carretilha, mais tarde papai colocou uma bomba, que a gente bombeava com a mão. Era comum também jogar cal virgem no poço para purificar um pouco a água. Na frente tinha a fossa negra.
As fossas eram sempre construídas na frente para facilitar o caminhão que vinha recolher os dejetos quando ela ficava cheia. A água do tanque vinha para a calçada, e caia na valeta que tinha depois na rua. Vinha sempre o caminhão da prefeitura jogar inseticida. Eu gostava de ver aquele homem com um tamborzinho verde nas costas esguichando inseticida naquela água que ficava verde.
Se onde a gente morava antes, tinha a farmácia do seu Bayer, perto da João Cachoeira, tinha a farmácia do seu Brandão. Meu lembro da esposa dele a dona Julia que era professora do grupo escolar Aristides de Castro onde eu estudava. Lembro também dos filhos do seu Brandão o Ivan e o Alberto, e as moças Ilka e Ieda.
– E do doutor Odilon, a senhora se lembra ?
– Sim me lembro. Quando meu pai e minha mãe ficaram doentes foi ele quem atendeu. Era o médico de família. Ele ia na casa das pessoas. Eu também fui atendida por ele. Certa vez mamãe o chamou a noite e ele foi até minha casa. Seu consultório sempre foi na rua da Ponte.
– O doutor Odilon ia muito na minha casa também. Ele era muito amigo do meu pai. Cresci também fazendo consulta com ele. Mais tarde até os início dos anos 1990, eu o via muito no Jockei Clube, onde ele era proprietário de cavalos de corrida. Cheguei a tirar fotos com ele e o cavalo vencedor. Se vivo for, está com mais de 90 anos.

– Lembro também de ir buscar leite na casa do seu Jacinto, cujo quintal nos fundos era transformado em curral, e ficava na Rua do Porto, bem próxima de sua casa.
No tempo da guerra eu ia comprar pão de madrugada, na padaria do seu Delfim. Era aquele pão preto. A gente ia sempre em turma. Mas mamãe ficava no portão sempre olhado, nossa casa ficava quando muito cem metros da padaria. Quando a gente perdia a hora que a fila estava bem grande não tinha mais pão. Então ia na padaria Itaim ali na esquina da Joaquim Floriano com a rua Bibi. Só que lá eles perguntavam quantas pessoas tinha em casa. Eu falava que tinha eu, minha irmã e papai e mamãe, não adiantava mentir, eles sabiam de tudo. Era um tempo muito difícil. Então eles cortavam dois filões em quatro pedaços e mais um quilo de açúcar preto. Na padaria Maná também faziam isso. Quando chegava as 10 horas da manhã tinham aqueles alemães que davam umas voltas pelas ruas, com aqueles emblemas da Alemanha nazista. Eram os presos que depois de dar um belo passeio voltavam para a cadeia. Até que recacambiaram eles para a Alemanha. Eu fiquei sabendo que eles estavam presos por intermédio do soldado Tim. Eu conversava muito com ele. Era ele quem atravessava a rua, quando a criançada saía da escola
Eu tinha a mania de pegar amora na cerca da casa do seu Fiori, que consertava sapatos na sua casa e não tinha como ele não ver que ela estava fazendo, pois consertava os sapatos bem perto da porta de entrada Seu Fiori, tô pegando umas amoras, dizia ela. Tanto seu Fiori como sua esposa dona Carmem que eram pessoas boníssimas, apenas riam e deixavam que aquela menina de cor negra bem educada e com voz mansa, saboreasse sua amoras preferidas. Mais ao lado estava a casa de dona Alice, mãe do Paulo, que morava quase em frente minha casa na rua do Porto. Eu para brincar com o nome da mãe dele, fazia um monologo. Dona Alice, ce, ce, que não bolice, ce. No chapéu, péu, péu, de dona Alice, ce, ce.
Me, lembro também de dona Virginia, me dava muito bem com a filha dela, com quem fazia poemas nos cadernos da escola.

A conversa com dona Gabriela estava bastante gostosa. Quando ela disse ter conhecido Francisco Alves pessoalmente. Pensei como uma menina de seus nove anos de idade pode conhecer um cantor do Rio de janeiro pessoalmente?
A resposta veio rápida: Sabe, o Francisco Alves veio fazer um show no Itaim, ali na Rua Joaquim Floriano esquina da rua Tapera em frente ao cine Itaim.
Era um terreno vazio que depois fizeram o Rink de Patinação. Foi um chororó para minha mãe deixar eu ir. Eu ouvia muito falar no Francisco Alves, comentários de minhas amigas. Não podia perder aquele show. Minha mãe deixou depois de tanto eu perturbá-la. Ele tava lá no tablado fazendo um show de chamado, sob a luz do meu bairro. Me lembro que ele fazia um reclame do sabão tesouro. Que era o que patrocinava o show que foi até as 9 horas da noite.
– Na Rua Joaquim Floriano tinha muitos chalés de jogo. A senhora fazia jogo do bicho pro seu pai?
– Não, meu pai não era de jogo. Mais eu sabia onde que era a chalé de jogo do bicho. Tinha até uma mercearia em frente, o Empório Zangari. Eu me lembro que um lugar que minha mãe deixava eu ir era lá na Rua das Cobras onde tinha a biblioteca na esquina da avenida Imperial. Mas o gostoso no Itaim era no Carnaval. Todos os moradores iam para a Rua Joaquim Floriano, andávamos até o largo da Maná e ficava indo e descendo, recebendo confete, que muitas vezes entrava pela boca, ou então ficar enroscada nas serpentinas jogadas em cima da gente. O ruim era o lança perfume, quando caia na vista ardia muito. Mas o que eu tinha muito medo mesmo era do carvoeiro, um homem que andava arcado. Cada vez que ele passava com a carroça vendendo carvão, estava sempre todo sujinho, todo preto de carvão embora fosse de pele branca. Eu era muito criança e pensava que era um homem do outro mundo.
– Duas lojas que tem até hoje que são daqueles anos, 1940-50, são: Casa São Benedito na esquina da Rua Joaquim Floriano, com rua da Ponte e Casa Pais, já próximo a Rua Tapera.
– É verdade, mamãe sempre me mandava na casa Pais, era difícil não encontrar nada lá. Na casa São Benedito também fui, lá tinha mais material de construção, tintas, coisas que a Casa Pais não vendia, pois era mais um magazine.
– A senhora se lembra do seu Alfredo Cunha, que era professor do Aristides de Castro, a esposa dele também era professora?
– Lembro sim, assim vagamente, me lembro mais da filha dele, a Rosinha que estava na minha sala. Sempre que tinha festa era a Rosinha que ia cantar. Me lembro também do filho dele, o Geraldo Cunha que era novelista da rádio São Paulo.
Ele participava sempre da novela das duas horas da tarde, que era a novela que toda mulher ouvia por ter terminado a lavagem das louças do almoço. Eu me lembro bem do diretor da escola seu Aurélio, ele tinha óculos quadradinho. No lugar dele como diretor entrou o senhor Orlando Cândido Machado.
– Nossa, a senhora reavivou minha memória, eu não me lembrava que seu Aurélio era o diretor. Escrevi num comentário que ele era um funcionário qualquer da escola. A minha primeira professora foi a dona Otilia.
– Sim, eu a conheci. Era uma senhora negra. As faxineiras eram dona Iracema, e a Eponina que era sobrinha do seu Fonseca que tomava conta do pátio. E tocava o sino para a entrada e saída dos alunos. Além da professora Otilia, tive a professora Wanda, Nina, dona Maria Amélia do terceiro ano, e a dona Esther Siqueira Macedo que foi do quarto ano. De todas, quem mais gostei foi da Vanda e Maria Amélia. Tenho também a lembrança do Frei Bento, da igreja Santa Terezinha quando ainda era na rua tabapuã. Ele ia nas casas benzer e jogar água benta. Fiz com ele minha primeira comunhão.

Ai está o relato de dona Gabriela. Vai matar a saudade de muita gente que viveu no Itaim essa época.