O meu bairro

Em 1965, mudamos para a Vila União, bairro próximo a São Miguel Paulista – SP. Era um loteamento novo e chegou aquela mudança com nada menos do que 12 pessoas: pai, mãe e dez filhos. O mais velho tinha 19 anos e o mais novo três. Tudo era novidade. Eu tinha cinco anos e lembro que tinha poucas casas e muitos terrenos vazios, que acabaram se tornando a extensão do nosso quintal. Brincávamos de pega-pega, pique e esconde, bolinhas de gude, empinar pipa, pular corda, salto à distância, que, modéstia à parte, eu era a campeã e muitas outras brincadeiras divertidíssimas. Não tínhamos televisão ainda, pois meu pai comprou só em 1969, mas a alegria de brincar na rua, onde não havia asfalto e nem perigos como os de hoje em dia, valia cada minuto de nossas pequenas vidas.

Meus avôs maternos moravam na casa ao lado, mas não tinham muros separando os quintais, apenas uma pequena cerquinha de arame. A terra era muito fértil, meus avós plantavam frutas, cana, mandioca, milho, verduras, pois como bons agricultores que foram, lá no sertão do Ceará, sabiam valorizar a terra e tirar dela o melhor.

Minha mãe gostava de plantar verduras e lembro-me dela colhendo os tomatinhos verdes e temperando a carne, que ficava muito saborosa. Esse tempo passou, perdi meus avôs, meus pais, mas ficou a certeza de que, mesmo pobres, com todas as dificuldades que uma família grande enfrenta, houve felicidade naquele lar, onde não havia brinquedos caros e nem baratos, onde "Papai Noel" não visitou, mas havia principalmente a alegria de ser criança, a verdadeira alegria, que hoje se perdeu no meio de tablets, iPhones e toda a parafernália eletrônica que estão sufocando nossas crianças. Como dizia o poeta: “Ai que saudade que eu tenho da aurora da minha vida…”.

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