Diante da porta da loja ela parou. Estava observando a calçada toda esburacada e alguns homens trabalhando na abertura de uma vala na sarjeta da calçada de mais ou menos um metro de profundidade. Ali passaria toda a fiação elétrica da Rua dos Pinheiros e também de um trecho da Avenida Faria Lima. O tráfego era pesado. Da janela do apartamento o homem olhava para a calçada como se estivesse lançando uma interrogação naquilo que enxergava no acesso intransitável da Rua dos Pinheiros. O largo havia sido ampliado e muito.
Em tempos passados, o Anacleto, morador antigo do bairro recordava ainda quando a rua era estreita, esburacada, onde vagarosos e apinhados ônibus trafegavam no meio da buraqueira infernal de lombadas no asfalto danificado. Era a Rua Cardeal Arcoverde, esquina com a Rua Butantã, próximo ao Largo da Batata. Por que do nome Batata? Apesar de ser um nome folclórico, esta lenda ainda está presente no imaginário do povo lembrando muito de um grande terreno onde atualmente passa a Avenida Faria Lima, no qual os fazendeiros e chacareiros da região de Cotia na época costumavam trocar e vender alimentos produzidos em suas terras.
Com o passar do tempo o lugar ficou conhecido como Mercado Caipira. Um galpão instalado no terreno abrigava atacadistas de batatas, daí resultou o apelido da região de Largo da Batata. Hoje, em virtude das modificações existidas ali, deveria chamar-se simplesmente Largo de Pinheiros; seria mais eclético, mais charmoso, mais racional. Depois de atravessar uma pinguela de tábuas soltas a Elvira entrou na loja da Rua dos Pinheiros. Iria comprar uns materiais para acabamento do apartamento. Os preços não eram compatíveis entre as lojas. Tinha que pesquisar, porém a quebradeira das calçadas não lhe dava muitas opções de escolha. Entrou naquela loja onde os fragmentos de cimento da calçada eram menores. Comprou alguma coisa na loja antes, porém resmungou sobre os preços alvitrados dos materiais de construção.
Era uma segunda-feira depois da Páscoa. Ouviu o som do sino da igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat bater às 18h da tarde. Mendigos esfaimados moradores de rua estavam esperando pela sopa da noite que era oferecida e servida por almas caridosas da cozinha da igreja. Parecia que agora a igreja estava isolada, em um descampado de pedra e cimento naquela imensidão do moderno largo da Batata.
Naquele dia, parecia que o Oswaldo Macalé ainda estava vendo a Dona Filóca entrando na loja da Casa Pequena para comprar um fogão industrial para fritar pastéis nas feiras livres do Butantã e no Morumbi. O preço era bom. Mas olhando bem, a Casa Pequena não existia mais ali. Era apenas um amontoado de entulho, de destroços e escombros em ruínas. No horizonte, havia apenas um largo amplo, sofisticado, mostrando na nudez da paisagem apenas um mosaico de pedrinhas coloridas da nova estação do metrô. Onde estaria agora a velha relojoaria do Nishikawa? Quantas vezes o Hildebrando, morador do Rio Pequeno, havia levado para consertar o velho despertador alemão e o relógio antigo de parede. Essa loja acabou? Mudou? Sim! Agora está funcionando na Rua Cunha Gago. E a loja dos Irmãos Quaresma, uma tradição de pai para filhos? Ah esta sim acabou para sempre, deixando umas saudades. Ah!
O boteco do Souza, pouco conhecido é verdade, porém para alguns frequentadores da rua das ferragens a Brás Leme era ponto de encontro nos fins de tarde onde o Rufino da sapataria “Sete Estrelas” costumava tomar um Chianti ou então uma pretinha Caracu com ovo, um santo remédio para curar qualquer enfermidade; o homem ainda lembrava-se de quando o bonde fazia o balão no Largo da Batata e voltava para o centro da cidade, subindo a Rua Teodoro Sampaio até a Doutor Arnaldo e descia a estreita Rua da Consolação até o ponto final da Praça Ramos de Azevedo.
O Anésio, outro antigo morador do bairro, lembrou também quando tomava o bonde naqueles dias de garoa, quando São Paulo vivia mergulhado na friagem e no nevoeiro do inverno. Na ocasião, era necessário ir até próximo aos trilhos para ver a luzinha do bonde Praça Ramos de Azevedo se aproximando. Punha as mãos nos bolsos da calça para esquentar-se da friagem que vinha das várzeas do Rio Pinheiros.
Garoa, garoava sempre. Quando se aventurava lá pelos lados da Diógenes Ribeiro de Lima, na antiga estrada da boiada, podia ainda ver os animais pastando no capinzal nas margens espraiadas do Rio Pinheiros. Dava gosto sentir aquela pureza do ar matutino em meio ao capinzal; nada para empanar aquela paisagem deste São Paulo ainda meio provinciano e interiorano, onde se via os violeiros cantadores em dupla de dois puxando a reza do divino, fazendo uma reverência para São Gonçalo e São José, batendo os pés no chão de terra socada e a caravana de romeiros, cavaleiros e charreteiros embicarem pela estrada da Boiada até o Alto da Lapa, e seguia resoluta e determinada até Pirapora para reverenciar a imagem do Bom Jesus.
Ah! Aqueles tempos remotos que ficaram retidos na memória traziam uma nostálgica sensação daquele rito católico. No meio do caminho, depois de passar pela vacaria da Rua dos Dardanelos onde as vacas se recolhiam no cair da tarde, achou um pedacinho de terra encostado no barranco do caminho, pegou um pauzinho e riscou no chão estorricado e vermelho um círculo e escreveu na diagonal a palavra “saudades”. Ele ficou pensando, pensando, pensando nas recordações e afundou em uma tristeza profunda lembrando-se daqueles idos tempos que não voltam mais.
E-mail: [email protected]