Eles eram irmãos, o Antonio e o Argemiro, que tinham, bem na ladeira da Rua Jorge Tibiriçá, seu “atelier”, digo “atelier” porque eram verdadeiros mestres na arte de consertar calçados e bolsas. Naquela época não havia o descarte de sapatos, eram caros e mereciam especial atenção de seus donos que usavam até o "último suspiro", aí furos profundos e a boca a se abrir pedindo socorro e não adiantava mais colocar jornal ou papelão dentro, pois não surtia mais efeito. O remédio para eles, então, eram os irmãos e lá se ia o "pisante" ficar uns dias na sapataria e com a certeza de voltar para casa e para nossos pés novos em folha, brilhando de tanta "Nugget", para outras tantas caminhadas pelas ruas de paralelepípedo ou de terra mesmo.
Nessa época, minha irmã e eu éramos estudantes e, claro, tínhamos um par de sapatos para ir à escola e um par de tênis, então, quando levávamos os sapatos no Seu Antonio fazíamos aquela cara de "pedinte" e pedíamos pressa no conserto. Algumas vezes íamos para a escola de tênis, mas meu pai tinha que escrever na caderneta escolar o motivo de irmos diferentes dos outros alunos, porque naquela época as escolas públicas eram rígidas com relação ao uniforme. E quando, depois de uma semana, voltávamos para buscar o sapato, ele estava tão novo que mal reconhecíamos e lá no “atelier” mesmo trocávamos e aí que era um sufoco, porque o sapato novo escorregava na ladeira até chegar na Rua Afonso Celso e quantos tombos levei por estar com o “pisante” novo e por isso escorregando muito. O sapato ficava tão novo que até parecia que tinha encolhido.
Eles eram verdadeiros artistas na arte de consertar sapatos e não havia quem pudesse reclamar de seus trabalhos. Hoje, com essa vida tão atribulada, até os sapatos ficaram descartáveis, pois não se tem tempo nem de ir até uma sapataria, então compra-se sapatos para uma semana, não há mais sapatos como os de antigamente os quais, levando nos irmãos, duravam muito.
Seu Antonio era mais sisudo e o Argemiro mais simpático; usavam avental próprio e de lá guardamos o cheiro de graxa, cola e o barulho da máquina em que o sapato era "formatado", mas ambos deixaram em nossa memória a figura de profissionais competentes, coisa rara em nossos dias.
Roseli Tadeu Nabarrete – Moradora do bairro de Vila Mariana
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