Era um molecão ainda, cabelo castanho claro, sem residência fixa. Morava debaixo das marquises dos velhos edifícios da Praça da Sé, onde nas noites de frio se cobria com jornais velhos que catava nos cantos da Catedral. Ele não era paulistano. Como tantos outros, tinha vindo do interior de Pernambuco. Na capital trazia um sonho, um ideal, uma vontade irresistível de tentar alguma coisa no ramo da construção civil. De baixa escolaridade, pois era analfabeto funcional, apenas sabia assinar o nome e nada mais. José Raimundo era o seu nome de batismo! Seu apelido na roda da malandragem da Praça da Sé era Bozo. Havia muitos Bozos espalhados por aí e ele era mais um no meio de tantos outros. Do telefone público instalado defronte da farmácia do povo na Praça da Sé costumava comunicar-se com a família no interior de Pernambuco para informá-los se havia conseguido uma colocação no ramo da construção civil, cujo objetivo ele almejava no decorrer daquela bem sucedida época da exploração imobiliária dos anos 80.
Uma profissão determinada ele não tinha, sabia apenas encobrir com cal vivo superfícies internas e externas das paredes dos edifícios. O Biviano, um empreiteiro espanhol vindo de Zaragoza, estava à procura de pintores de parede para completar o quadro de diaristas, pois tinha arranjado um serviço temporário de pintura em um edifício situado em uma das principais ruas dos Jardins. O pagamento não era lá aquelas coisas. Vinte cruzeiros por dia, incluso o almoço: um sanduíche de mortadela na chapa, que era oferecido aos peões da obra, e uma mirrada fatia de goiabada cascão que recebia o apelido de sobremesa de tão fina que era.
O que há de se fazer? Não era o ideal, porém significava melhor do que nada. O dinheiro ganhado com a diária dava apenas para dissimular a fome que corroia suas entranhas. Aquele providencial sanduíche de mortadela na chapa oferecido pelo patrão espanhol caíra efetivamente do céu. O serviço do Bozo era arriscado. Suspenso por uma velha e fina corda amarrada em um pilar da caixa d'água balouçava perigosamente ao sabor do vento brando. Antes disso, o Bozo tinha, no passado recente, trabalhado como avulso na demolição de um prédio próximo à Praça João Mendes. Aconteceu que naquela época, em companhia de outros peões, tinha se metido em uma confusão por causa da Maria Isabel, uma mulata generosa, aquela que fazia o bem e não olhava a quem, e que morava em uma pensão ao lado da Rua da Glória.
O Jamelão, namorado da Isabel, queria matá-lo caso aparecesse novamente no pedaço. No alto do prédio, assentado no balancim, os cabelos ao sabor do vento brando, ele assoviava a modinha da época que tocava em quase todas as rádios da cidade: "Fuscão preto você é feito de lata", uma cantilena tão em moda na época. Dependurado naquele espaço vazio a quase cinquenta metros de altura do chão lá ia o Bozo caiando, caiando sempre, enquanto o pincel deslizava vigorosamente na vertical e na horizontal nas paredes do edifício. Estava já chegando ao segundo andar, quando da janela de um apartamento um homem, com cara de ganso de aldeia, interrompeu o seu trabalho. Parecia que tinha acordado naquela hora enviesada da manhã de um sono sagrado e agitado porque tinha a cara amassada pelas reentrâncias das linhas do travesseiro.
Era o Badico, um sujeito mal-resolvido financeiramente e que estava de plantão na janela de um dos quartos do prédio observando atentamente o vai vem do balancim que sacudia perigosamente na fina corda que raspava na mureta da moldura da janela. Durante a pintura da parede o Bozo deu uma pausa, um pequeno intervalo na pintura. Acabava de ajeitar a lata de tinta presa em um suporte em formato de gancho. O Badico parecia com um louva-deus que ataca quando alguém fica olhando muito para ele. O Bozo fez uma pausa no ato de pintar e resolveu encarar de frente o sujeito. Olhou para baixo do balancim e calculou, agora faltam dois andares para terminar a caiação e ele não estava disposto a perder tempo com aquele sujeito que mais parecia um sapo cururu. O Badico não perdeu tempo. Pôs a cabeçorra para fora da janela e falou: – Ei pintor, você gostaria de ganhar um dinheiro extra? O Bozo se empertigou todo no assento da tábua do balancim, se retesou todo, endireitou o corpo e parou com os pés apoiados na parede. Ele estava balouçando perigosamente entre o sulco cavado do abismo e parecia lutar contra a inclinação de sustentação do andaime móvel – O que tenho que fazer? – Disse ele, olhando para o cretino do Badico. – Olha, gostaria que você pintasse os dois quartos e a sala de meu apartamento, aproveitando, é claro, a tinta do prédio. – Quanto você me paga pelo serviço extra? – Cem cruzeiros – disse o Badico com cara de gato que comeu rato. – Feito! Amanhã eu começo, está bem assim? – Não, amanhã não, gostaria que fosse agora, já que você está estacionado de frente à minha janela e é só pular para dentro sem que ninguém veja e poderia começar a pintar calmamente os dois dormitórios, usando é claro as tintas do prédio.
O Bozo pensou, repensou: realmente a oferta era boa; cem cruzeiros de extra iria melhorar e de muito a sua situação financeira, além do mais, não tinha nada a perder. De imediato topou. Ao meio-dia em ponto parou para ir almoçar o decantado lanche de mortadela na chapa na padaria do português da esquina. O que ele não contava é que o Badico tinha uma filha prendada e que estava na cozinha preparando o rango do almoço. Claro que ela não iria deixar de oferecer-lhe um bom prato de arroz com feijão, uma saladinha de tomates e claro, uma cervejinha gelada. Ela não iria permitir que o Bozo fosse comer na padaria; tinha que cativá-lo e pegá-lo pelo estômago; estava deveras encantada com aquele mandrião de cabelos castanhos e que entrara pela janela do quarto como se ele fosse o seu Romeu e ela a sua Julieta. Seu nome era Anita e era zarolha porque tinha um dos olhos voltado para o meio do nariz. Apesar daquele defeito, era uma moça bonita. Os cabelos castanhos dourados, enrolados em um coque perfeito compunha a harmonia do penteado a prender em uma fivela delicada um cacho dos cabelos que caia sobre a testa redonda.
Aquele sujeito que caíra na janela do seu quarto de donzela e foi uma paixão avassaladora, um amor a primeira vista. Depois de ter caiado o apartamento do Badico o Bozo ficou olhando para moçoila na expectativa de receber os cem cruzeiros combinados. Acontece que o Badico estava sem dinheiro no momento e dependia de um jogo que havia feito nas patas dos cavalos no Jockey Clube de São Paulo. Finalmente, depois de um mês de espera, recebeu o pagamento do serviço. A Anita estava radiante diante de tanto amor e encanto, depois de conviver por um tempo razoável com o Príncipe Encantado do Balancim, seu ídolo do coração; quanta graça e esplendor ela viu naquele Adônis da caiação. E em um belo dia de Maio entre mesuras mil e gestos estudados depois de tantas lisonjas e segredos mil as prendas e os presentes são trocados e os anéis de noivado são oferecidos e a data do casamento é marcada. Quando ele a viu aparecer na sala de jantar sentiu que outra rainha ao acaso não lhe dava como aquela menina que naquele apartamento morava.
Ali perante o manto sagrado do altar da igreja do Perpétuo Socorro seguem-se as bodas do santo ofício para unirem-se até que a morte os separem, o Príncipe do Balancim com a Princesa da Alcova que naquele edifício morava.
E-mail: [email protected]