A morta desconhecida

Olá meus amigos deste site que tanto admiro. Sei que há um tempo não compartilho um texto, uma memória. Minha mãe dizia e meu pai confirma todos os dias no alto dos seus 93 anos, que à medida que envelhecemos o tempo adquiri outro tempo. O passado tão distante parece, algumas vezes, tão presente e o futuro recente se perde nas lembranças e assim faço desse momento presente apenas breve descanso do nosso último encontro.

Mas deixando tanta explicação, justifico que o desejo de compartilhar mais uma vez uma parte do meu cotidiano, dessa vez, inicio com o que ocorreu com minha ex-cunhada, mas sempre amiga, e que compartilhou em sua página no Facebook em que dia desses ela e o marido se arrumaram nos seus trajes mais elegantes, ela no alto do seu salto e ambos exalando seus melhores perfumes, se dirigiram confiantes ao compromisso assumido. Lá chegando, foram recebidos pela anfitriã de pijama aos latidos dos cachorros alvoroçados com os estranhos e diante de risos e desculpas se deram conta que o aniversário seria no dia seguinte.

Enquanto lia, outro desses enganos me veio à mente. A diferença estava que em vez de um aniversário o meu ocorreu por conta de um velório. É, estava eu no meio de um atendimento, em meu consultório, quando o celular tocou, pedi licença e, logo após o meu alô, a voz do outro lado em tom aflito e emocionado me participava a morte de alguém, que segundo ela eu conhecia, pois estava em sua agenda particular. Como não era o momento para estender e esclarecer as minhas dúvidas, anotei o local em que a tal amiga seria velada. Assim que terminei os atendimentos da primeira parte do dia enviei um recado, avisando em casa que iria para um velório, em um dos anexos do Hospital A. Einstein, e que não chegaria a tempo para o almoço.

Durante o trajeto tentava ter certeza de quem se tratava; seria uma ex-paciente, uma ex-aluna ou uma conhecida de tempos passados? Tortura para estacionar e calor abrasador do meio-dia. Tudo superado e me vejo na sala fria do velório por conta do ar-condicionado. Rapidamente, corri o olhar pelo salão e não reconheci e nem fui reconhecida por ninguém. Timidamente, me dirigi ao caixão, afinal, essa seria a forma mais prática de ajudar minha memória. Diante do ataúde, olhei para aquele rosto pálido e maquiado e aflitivamente, continuei não o identificando com quem quer que fosse.

Diante da morta desconhecida elevei meu pensamento à Deus e roguei luz para aquela alma, assim como para a minha memória turva diante da realidade daquela situação delicada e fúnebre. Ao chegar em casa, encontrei minha irmã e sobrinha que juntamente com minha filha Rebeca queriam saber de quem se tratava e a única coisa que consegui responder foi: “Nem imagino quem seja!”. Apesar de não ser o momento mais indicado, rimos muito enquanto tentava expor todo o trágico acontecido.

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