Chorei defronte à televisão. A imagem do terror, do furor e das emissoras de TV diante da desgraça. A morte da estudante na Estrada das Lágrimas (que coincidência…) que se tornou a Estrada da Morte. A estrada percorrida por Bandeirantes onde suas mulheres se despediam, tinha uma imensa árvore que já não mais existe… Daí o nome, das Lágrimas. A estrada tantas vezes percorrida por mim na infância, onde andava de bicicleta na alegria e inocência dos meus anos infantis junto com as primas e irmãos. Íamos até o Haras Patente, a São João Clímaco, até o terceiro campo (havia três campos de futebol) que quase chegavam a São Caetano. A Avenida Almirante Delamare e a Rua Comandante Taylor eram de terra. Viajar para São Caetano era uma aventura proibida pelos pais devido à distância. Havia trilhas no morro e as montanhinhas de argila onde hoje estão o viaduto e a passarela.
Heliópolis, primeiro se chamou Morro do Penteado, aquele da viúva Penteado que mandou fazer as lindas casas que lá havia para os funcionários da sua empresa. Eram casas grandes, simples, mas dignas e lembro como se fosse hoje o dia em que parti da Vila Mariana para morar no Heliópolis. A maior e mais bela casa era a que hoje abriga a creche de Vila Heliópolis. Era a casa do médico pediatra, que tantos anos ali morou e clinicava no Ipiranga. Aquele que dava festas infantis lindas para o filho e para nós crianças, filhos de trabalhadores. Depois que ele partiu lá foi morar uma família cujos filhos eram amigos do meu irmão. As casas foram vendidas para o antigo Inps e este vendeu o sonho da casa própria em suaves e longínquas prestações que só foram quitadas quando meu pai morreu. Minha mãe lá morou por dez ou mais anos. Já havia sido feita uma reforma quando meu pai ainda era vivo e ali ela terminou de criar os filhos. Dali, saí somente casada.
Lembro-me bem: onde hoje se erguem prédios à direita da Avenida Almirante Delamare havia uma grande casa solitária que depois foi adquirida pela ACM e que quantas vezes frequentei. Circundavam a casa, enormes chácaras: a do Seu Manoel verdureiro e a da Dona Luzia que lavava roupa e passava para todas as famílias do lugar. Havia um imenso terreno na frente das casas da Rua Almirante Mariath – onde eu morava, bem no meio do quarteirão que terminava no Frigorífico Ceratti, que pertencia à Cohab o qual sempre se intentava ser ocupado por um gaiato; a minha velha mãe ligava para a prefeitura e no dia seguinte os “moirões” que brotavam como erva daninha eram retirados.
Um belo dia o pesadelo começou. Não sei quantos anos eu tinha, quando houve uma desocupação de uma favela na Vila Prudente e foram feitos alojamentos provisórios para os desabrigados. Lembro as intermináveis negociações com os moradores, para a instalação dos abrigos, com as assistentes sociais e o provisório tornou-se definitivo. Enquanto a minha velha mãe lá viveu, o grande terreno da Cohab não foi ocupado. Após a sua morte começou. Da noite para o dia brotaram cercas de arame farpado de 4×4 e o patrão (até hoje não sei quem foi) cobrava 2500 reais dos coitados que procuravam um local para morar. E a casa comprada com sacrifício pelos meus pais foi, inúmeras vezes, invadida.
O grande terreno tornou-se um caos de casas desorganizadas (claro que era o que se podia fazer, afinal pagaram a um ladrão por algo que não lhe pertencia). Já havia o hospital, o posto de saúde no qual trabalhei por 15 anos, condução na porta, perto de tudo e principalmente próximo de grandes indústrias tanto do ABC quanto das metalúrgicas da Vila Carioca. A Cohab não conseguiu a reintegração de posse, pois na tentativa houve protesto dos moradores e a polícia saiu correndo. As casas das parabólicas junto ao posto foram feitas pelo então prefeito Janio Quadros e o conjunto habitacional próximo à divisa de São Caetano pela Luiza Erundina que foi quem permitiu a invasão do terreno defronte à minha casa que seria destinado à construção de conjuntos habitacionais. Pois bem. Assim eu vi nascer a comunidade do Heliópolis e ver a casa da minha família ser engolida por ela.
Ontem, quando vi a praça de guerra defronte à Igreja da Santa Edwiges, cada pedra atirada caiu dentro do meu coração. Cada pessoa machucada, a morte da menina, o fogo, o desespero e a tristeza de tantas pessoas de bem que lá estavam, destruíram definitivamente tantas e boas lembranças da minha vida; de subir em árvore, a grande paineira na porta da minha casa, e nos centenários jacarandás floridos de roxo; andar de bicicleta, na montanhinha e no caminhinho. E depois de tudo isso passar na fonte de água pura e fresca junto à arvore da Estrada das Lágrimas para se refrescar. Heliópolis não é o que eu conheci. Não julgo ninguém. Apenas relato aquilo que entre tantas lembranças me vieram à mente ao ver a guerra.
“O meu Heliópolis foi de paz”.
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