Minha família sempre gostou de velejar e a represa de Guarapiranga – ou de Santo Amaro – era nossa praia, o lazer de final de semana, ainda que morando na região oeste da cidade. Estimulada por pais, avós e tios velejadores, a partir dos dez anos comecei a frequentar uma linda baia que abrigava os principais clubes do local: Yacht Clube Paulista (YCP) – dos paulistanos, Clube Itaipu – dos italianos, o Clube Santo Amaro – dos alemães, São Paulo Yacht Club – dos ingleses, e o Clube de Campo, um pouco mais distante, famoso também pelo polo. <br><br>Tínhamos barco a vela e participávamos das regatas aos finais de semana – uma festa para todos, domingo cheio de aventura. As categorias dos veleiros permitiam diversas competições em um mesmo dia, com barcos como o "pinguim" ("fusquinha" da época) e outros tipos: "olímpico", "star", "snipe", etc. O "pinguim" era das crianças e adolescentes no começo da carreira de velejador, com dois tripulantes: bem simples, mas exigia habilidade para quem queria vencer. Os nomes dos barquinhos também eram uma delícia de se identificar: Meio-Dia, Meia-Noite (de dois irmãos campeões), Rabicó, Super-Zé e outros sugestivos – tinham até batizado oficial, com os devidos comes e bebes. <br><br>O processo que culminava com a corrida era composto de uma prévia da viagem – o preparo (e a volta ao hangar) das cordas, dos mastros, dos lastros, das velas de nylon ou algodão, dos remos, reboques e tantos equipamentos, antes da velocidade atingir uma rajada de vento ou, rasteiramente, uma calmaria irritante. No frio ficava ainda mais difícil, mas tudo era especial. Eu nunca fui uma grande velejadora e participava de longe da folia. O gostoso mesmo era, após a regata, do banho quente e da festa com chocolate, lanches e brindes que aguardavam os participantes no salão principal dos clubes. Era o momento dos discursos, de se premiar os ganhadores com troféus e medalhas, alternando a disputa entre os sócios das diferentes partes da represa. <br><br>Muitas famílias tinham casas lindas nas margens, com vizinhos e filhos amigos, tripulantes dos veleiros – comandantes e proeiros. Existiam também lanchas, muitas e diferentes. Como uma corrida da Fórmula 1, vez ou outra aconteciam disputas bravas e lindas. Lanchas e veleiros, de formas variadas, coloriam aquele espaço de lazer náutico com competições temáticas: "Homenagem aos Campeões”, "Troféu Dante Carraro" e outras. Com uma água clara e limpa, dava para beber (mas já não era recomendado) e as praias eram bonitas, agradáveis, repletas de mica prateada. As ilhas no entorno estimulavam curiosidade e a vegetação convidativa, mais ao fundo da baia principal, um deserto a ser desbravado, cheio de mistério. <br> <br>Um dia, meu pai comprou um barco diferente, de uma classe chamada "Delfim", batizado de "Saracura" – bairro de São Paulo onde meu avô viveu; tinha cabine, mesinha, porão e era bem grande, toda família nele se divertia, com ou sem vento. Aventuramos algumas idas às praias e ilhas distantes, à procura das terras desconhecidas com o elegante veleiro que se destacava naquele desfile de bandeiras, motor, boias e velas.
Minhas filhas, quando crianças, aproveitaram muito daquele momento mágico. Era sagrado sair de casa cedinho, pegar a Ponte do Socorro, no caminho de estradas esburacadas, estreitas, cheia de curvas, passando por Parelheiros e outros cantinhos, até chegar ao YCP. Muita poeira, galinhas, cachorros, vacas e cavalos, mas nenhum perigo. O retorno para a casa também era uma epopeia, circundando os bairros da região sul da capital, acompanhando a Marginal do Rio Pinheiros, todos queimados pelo sol, com o gosto da represa.<br><br>Embora com o tempo tudo tende a se modificar, fica difícil imaginar aquele cenário em sua forma mais natural. Com certeza hoje ele ainda persiste cheio de vida, até mais sofisticado, frequentado pelos filhos dos filhos de campeões talentosos, do velejar de outrora. Novas gerações vieram, e outras vão passar com novos aprendizados e preferências por este esporte – embora, recordando os anos 70 e 80, muito do primitivo, autêntico e verdejante já não mais existe. Outras casas e pessoas se achegaram ao redor da água da grande represa, a poluição cresceu com o desenvolvimento da região e o panorama urbano despontou em massa. Entretanto, ainda que a região da Guarapiranga tenha tomado rumos diversos, sempre será única, com sua beleza majestosa coroando o sul da região metropolitana da cidade de São Paulo.<br><br><br>E-mail: [email protected]