Uma história do Teatro de Revista

No final do ano de 1964, famoso ano do Golpe Militar, eu trabalhava em uma Revista no Teatro Santana com texto de Max Nunes com produção e direção do saudoso e na época grande homem de teatro J. Maia, ao lado de um grande elenco composto por Celeste Aída, Rodolfo Arena, Dino Santana, irmão do Dede e sobrinho do famoso Cole Santana, mais Maria Quitéria e Judite Barbosa.

Após a sessão, íamos invariavelmente para o “Restaurante do Papai”, na Praça Júlio de Mesquita, ou o “Restaurante Parreirinha” e até mesmo, às vezes, para o “Moraes”, onde em contato com outros artistas ficávamos sabendo das últimas fofocas do dia, como também tomávamos conhecimento de novos shows e de novas piadas.

Depois, aqueles que participavam de shows em casas noturnas iam para o seu trabalho e então os mais famílias voltavam para suas casas e os sem compromissos ou aqueles que não ligavam muito para esse fato iam badalar pela noite até a madrugada e depois ainda faziam uma hora extra na Adega do Arouche, ou no Restaurante do Eduardo no início da Rua Augusta.

Em uma noite dessas, depois do jantar, alguém que eu não me lembro mais me convidou para fazer um show com um bom cachê em Presidente Prudente. Fiquei então em uma sinuca de bico, pois o cachê pago para esse show de duas horas era mais que metade do meu salário mensal no Teatro.

Fui para minha casa com a cabeça queimando entre o dever para com o Teatro e a tentação de uma viagem com um belo cachê e, então, combinei para dar a resposta logo cedo no dia seguinte. Acordei depois de dormir muito mal, e então na manhã seguinte cheio de remorsos optei pelo maior ganho e combinei o show em Presidente Prudente, no ginásio do Estádio da Prudentina, depois de ligar para o escritório do Teatro e deixar o recado de que eu iria faltar por luto, e que minha mãe havia falecido.

E assim eu fui à Presidente Prudente, faturei o cachê, e no dia seguinte fui para o Teatro. Assim que cheguei novo drama de consciência. J. Maia e os colegas solidários vieram me abraçar e trazer suas condolências. Fiz a minha participação cheio de remorsos, foi mais uma noite de muito sofrimento e consciência pesada. O tempo passou, entrou o ano de 1965, e seis meses depois do triste episódio, minha mãe, depois de um derrame, veio a falecer de verdade enquanto eu estava trabalhando.

Quando voltei para casa e tomei conhecimento que o enterro dela seria no dia seguinte às 17h eu liguei para o Teatro dizendo que não iria trabalhar e como não mais podia dizer que minha mãe havia morrido disse que a morta agora era a minha irmã. J. Maia não acreditou na história e juntamente com um secretário, foram até a minha casa na Freguesia do Ó, para ver se a minha história era verdadeira, eles chegaram um pouco antes da saída do enterro.

Chegaram, me abraçaram, deixaram suas condolências e foram embora. No dia seguinte, assim que cheguei ao Teatro, o porteiro me avisou para passar no escritório que a direção queria falar comigo. Fui sabendo de antemão que haveria na melhor das hipóteses uma chamada de atenção, pois sábia que aquela minha mentira, agora descoberta, não haveria de ficar barato.

Preparei o meu espírito e parti para enfrentar a situação, que pelo “zunzum” dos camarins o meu "leite" estava fervendo na panela, já que todos os colegas estavam fofocando ao meu respeito, os mais chegados solidários, mas a maioria condenando. Cheguei ao escritório com cara de deputado condenado pelo mensalão, sem encontrar nenhuma remota justificativa dentro de mim, que justificasse aquela minha conduta de deixar um espetáculo artístico na mão, sem levar em conta o desrespeito para com os colegas que tiveram que improvisar as cenas das quais eu participava, pois o lema do Teatro é: O espetáculo não pode parar.

Entrei na sala onde havia mais cinco pessoas, J. Maia me esperava e aos gritos como era e é da característica da maioria dos diretores de teatro e de televisão, perguntou como é que eu tinha feito uma coisa dessas com ele que me deu a grande oportunidade de participar de uma revista musical, dizendo:

– Arthur porque você mentiu e disse que foi a sua Irmã que havia morrido e não disse a verdade, que a morta era a sua mãe?

E eu todo sem graça respondi: – Seu Maia, eu falei que foi a minha irmã porque a minha mãe eu matei o ano passado.

Pegos de surpresa, todos os presentes caíram na gargalhada inclusive o saudoso e tão querido J. Maia. Infelizmente, quatro meses depois, J. Maia também deixou esse nosso mundo, em um trágico acidente automobilístico. Livrei-me da multa contratual, mas paguei muito caro em minha consciência pela mentira, teria sido bem melhor ter resolvido isso com a verdade.

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