Eleição – mesário, voluntário forçado

No início da década de 1980, com a ditadura perdendo força e sendo restabelecida a democracia de forma homeopática com algumas aberturas políticas e algumas eleições como para governador, onde se elegeu Franco Montoro em 1982, primeiro desde 1960 e seu vice Orestes Quércia e ainda com votos vinculados para todos os cargos. Nessa época eu era um recém-casado, recém-formado, recém-desempregado e nesse ano de 1982 perdi minha mãe, foi para outro plano, vários acontecimentos negativos em pouco tempo.

Para piorar, fui convocado para trabalhar como mesário "voluntário" nas eleições de 15 de novembro de 1982, logo que recebi a convocação protocolei um requerimento que não tinha condição de trabalhar nas eleições, explicando todo o ocorrido, a resposta foi imediata, não deferido, e que eu estaria trabalhando para um bem comum e em favor da pátria amada.

Como ainda havia o domínio da ditadura, fiquei conformado, mesmo porque a punição era rigorosa e ainda hoje é: quem não for trabalhar e assim como não votar sofre sanções de criminoso, não pode se candidatar a nada em órgãos públicos, nem passaporte, concurso público e outra coisa mais, ficamos até hoje com resquícios da ditadura, pequenas ditaduras enraizadas no sistema.

Enfim, fiz um treinamento de três seções noturnas com muitos "voluntários" no Clube Banco do Brasil (AABB), na Estrada de Itapecerica, do bairro V. Prel, bairro vizinho a V. das Belezas, e no dia fui para o bairro do Jardim Ibirapuera no Colégio Presidente Charles de Gaulle a pé, pois estava sem carro nessa época e naquele percurso não havia linha de ônibus, desce morro, sobe morro, uns três quilômetros, cheguei exausto, assumi meu posto e mãos a obra.

Nessa época era tudo manual, papel que não acabava mais, ao meio-dia a fome apertou, era cafezinho e bolachinha a toda hora, se soubesse levava marmita, pois nem boteco tinha naquela região e no final da eleição ainda tinha que ajudar a levar as sacolas com as urnas e votos acompanhado pela polícia até a seção de apuração que ficava no Clube Banespa no Brooklin e ali me convocaram para contar os votos, pensei: “Agora eu morro de fome e cansaço”, mas cheguei em casa tarde da noite e vivo.

Nesse colégio trabalhei em duas eleições, uma inclusive para o plebiscito sobre a emancipação de Santo Amaro, em 1985, tornando município novamente ou continuava bairro, bairro que ganhou com larga margem, onde dos 60000 votantes, 56000 foram contrários, ainda bem, pois, pelo projeto, Santo Amaro voltaria a ser município não como território original e sim com a parte mais pobre, ideia de alguns santamarenses que almejavam cargos e quem sabe visando a verba anual do governo federal denominada de fundo de participação do município, onde muitos vivem desse dinheiro, pois não produzem nada, só despesas.

Pensei que estava livre desse trabalho, mas em uma outra eleição fui convocado novamente, mas ai já estava em situação melhor e fui trabalhar próximo à minha casa, uma quadra de distância, no Colégio Renato Braga na V. das Belezas e com mais experiência e a minha turma era de colegas que ainda não conhecia e fui como presidente de mesa, ensinei o pessoal a trabalhar, escalei-os em seus postos, o porteiro, o mesário, o conferidor e mais não sei o quê. Na hora do almoço, deixei uma pessoa como responsável e fui almoçar em casa com direito a quase duas horas de almoço, por minha conta.

Voltei e estava tudo bem organizado, acho que orientei bem meus "funcionários" ou eu não fazia falta ali. No final da apuração escalei um rapaz para ir ao Banespa, levar os malotes com as urnas e dei por encerrado minha participação naquela eleição. Imaginei que não seria mais chamado, ledo engano, nova eleição, nova convocação, aí fiquei sabendo que era por cinco anos ou cinco eleições, não me lembro bem, mas fazer o quê, era voluntário forçado, mas todas as outras perto de casa e agi da mesma forma e tudo correu sempre bem, sem tumulto, sem filas e conclui que não deixa de ser um ato importante para o ser humano como cidadão.

Mas, não deixei de indagar e propor aos que trabalham nessa época uma ajuda de custo, afinal, estamos trabalhando para um sistema onde o dinheiro é esbanjado por todos os políticos, com salários altos, gratificações, mil assessores, o que custava uma ajuda de custo para os "voluntários" patrióticos, mesmo porque os partidos são sustentados pelo poder público.

Já de alguns anos as eleições são eletrônicas, pouco papel, rapidez, único detalhe é o título, antigamente tínhamos um título com foto e dados pessoais, na frente e no verso diversos quadrinhos onde eram preenchidos com a data da votação e assinatura do mesário, atualmente temos que levar o título de eleitor e um documento oficial com foto, só com o título não se vota, nem para conselho tutelar, pois uma vez fomos votar com uns amigos para esse cargo e meu amigo levou o título de eleitor oficial e não pode votar. Incrível, pois no título tem espaço para foto e para o polegar (para quem é analfabeto), são incoerências de nossas autoridades.

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