A maior parte da minha vida estudei em escola pública. Mas quando tinha onze anos inventaram que eu tinha que estudar em um colégio de padres. Meus pais me tiraram da escola pública para estudar em escola particular. Até então ia para a escola a pé em companhia de outros colegas. Na ocasião, morava na Avenida Santo Amaro (zona sul) e me matricularam no Colégio Santo Alberto na Rua Martiniano de Carvalho, no Bairro da Bela Vista – Bixiga, bem próximo ao centro da cidade. Era preciso tomar um ônibus Vila Helena, Canal 7.
Nunca fui de arrumar confusões e brigas na infância.
Certa vez dois garotos da escola brigaram no ponto de ônibus próximo a escola. O secretário da escola apareceu e logo acabou dispersando toda aquela confusão. Mas ele anotou o nome de todos os alunos que esperavam a condução. Acabei sendo envolvido em uma briga no ponto de ônibus sem ter participado de nada. Não conhecia ninguém presente ali, mas meu nome fora colocado na lista.
Ao dar entrada na escola os alunos deixavam sua caderneta escolar na secretaria. Ao final das aulas os alunos retiravam a mesma. Ao receber a minha notei que havia uma observação: “Seu filho esteve envolvido em confusões na área externa da escola e no ponto de ônibus”. Como isso nunca tinha acontecido comigo não dei muita bola para o assunto.
No dia seguinte, ao entrar, fui barrado por não ter trazido a assinatura de meu pai na caderneta. E por isso acabei levando uma segunda observação: “O aluno foi irresponsável por não trazer a assinatura e perdeu a prova de Francês”. Fui mandado de volta para casa.
Acabei fazendo gazeta para voltar para casa (era sexta-feira).
Na segunda-feira, a página da caderneta era virada, pois começava uma outra semana. Pensei então que ninguém notaria que não fora assinado. Fui levado a diretoria e levando mais duas observações, uma dizendo que havia sido negligente e outra por ter faltado a missa, pois não havia o carimbo do padre. De repente, vi que tinha colecionado quatro observações, para mim descabidas, mas que manchavam minha caderneta. O que fazer? Apagar? Jogar fora? Falsificar? Um imenso pavor tomou conta de mim.
No dia seguinte, sai de casa com lanche e fui até a porta da escola, mas não tive coragem de entrar, pois poderia levar outras. Acabei entrando na igreja colada a da escola. Acabei descobrindo uma escada que levava aos sinos. Naquele momento a igreja esta vazia. Tomei coragem e fui subindo até chegar ao seu final. O local dava para uma sacada com uma linda visão do bairro. E mais um lance de escada levava ao campanário, o local onde ficavam os sinos. A cada 15 minutos tocavam os sinos anunciando o passar das horas.
Na subida ao campanário encontrei dezenas de revistas em quadrinho que contavam cada uma a vida dos vários santos da Igreja. Passei ali a manhã toda lendo as revistas e comendo meu lanche. Ao soar os sinos do meio-dia encerravam-se as aulas. Desci então e fui pra casa. No dia seguinte levei mais dinheiro e resolvi mudar o esquema. Resolvi passar o dia no Parque do Ibirapuera. Arrumei um cantinho no meio das árvores pertinho do lago onde alugavam barcos a remos e a motor e ali passei a maior parte da manhã. Com a mochila cheia de gibis fiquei lendo, descansando e comendo.
Ao voltar para casa, dou de cara com o secretário da escola conversando com meu pai. Entrei de fininho, já esperando a desgraça acontecer. Pouco tempo depois entra meu pai com a cinta já nas mãos e me pegou de jeito. Levei a maior surra de minha vida. Meu pai me jogou na cama e bateu sem dó. Às vezes ele se cansava e parava para descansar e depois recomeçava. Essa foi a primeira e última surra que tomei. Aprendi lição.
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