Eleições, um trabalho voluntário

Tenho lembranças positivas das eleições do passado e isto se deve ao meu pai. Estudado que era e com forte sentimento de solidariedade adquirido na sua trajetória de vida, lá no bairro onde morava, gostava de praticar a cidadania ajudando e orientado os menos favorecidos e todos aqueles que queriam saber o local de votação.

Naquele tempo nem todos tinham acesso a essa informação como temos hoje, mas o Sr. João, por ter sempre em mãos o Diário Oficial do Município de São Paulo, com toda sua seriedade, educação, respeito e muita paciência, montava lá na rua de casa um posto de informações úteis para todos que passavam por ali antes de votar.

Ele não fazia propaganda de candidatos e não influenciava as pessoas, seu trabalho era simplesmente voluntário e apenas de orientação de como e onde votar. Estava sempre de olho nos candidatos na época das eleições e para fazer sua escolha, usava do que mais gostava de fazer, a leitura. Era leitor de todos os jornais e revistas da época, além de participar dos comícios, quando eram feitos próximos de casa.

No bairro da Penha, normalmente o comício era realizado no Largo Oito de Setembro. Nada de palanques pomposos, barulho ou poluição visual. Pelo contrário. No momento certo, reinava o silêncio para que os eleitores pudessem ouvir com clareza as promessas dos candidatos.

Em uma ocasião ele foi assistir o comício do Ademar de Barros e em outra o de Jânio Quadros. Não me lembro, mas, acho que naquele tempo era inexistente a participação das crianças e das mulheres neste movimento. Já em casa, com as cédulas dos candidatos nas mãos, meu pai argumentava muito bem sobre os discursos eleitorais da época. O dia da eleição era muito importante para nós e todos os eleitores e, mediante todo este movimento, eu já percebia como era importante a escolha de um candidato.

Logo cedo, meu pai colocava a pequena mesa que tinha no seu escritório na calçada, bem em frente de casa. Sobre ela reinava o Diário Oficial, que por sinal era bem grosso, e uma régua para ajudar na leitura das zonas eleitorais e seus endereços. Esta mesa tinha duas gavetas, em uma delas ficavam as cédulas dos candidatos e na outra, papéis cortados de sobras do seu trabalho. Na mesa, sempre havia uma pessoa adulta, meu pai, um dos meus irmãos mais velhos ou algum de seus ajudantes que trabalhavam no seu escritório. Para mim, que ficava sempre a volta da mesa, restava apenas entregar as cédulas que as pessoas pediam, um trabalho pequeno, mas de grande importância.

A rua de casa ficava movimentada e na mesa formava uma fila, porque os eleitores da redondeza iam lá para saber seu local de votação. Se não me falha a memória, a prefeitura colocava a serviço da comunidade outros postos distribuídos pelo bairro, mas lembro mesmo o do meu pai, que era simplesmente voluntário, onde as pessoas saiam agradecidas pelas orientações que recebia.

Este movimento era durante o dia todo e só terminava com o fim do horário de votação. Por fim, chegava a hora de recolher a mesa e todos terminavam o trabalho com a sensação de dever cumprido. E meu pai ficava orgulhoso por ter colaborado mais uma vez nas eleições. Esta cena foi repetida por algumas vezes sem que eu chegasse a sentar na cadeira principal desta mesa, porque tudo ficou mais evoluído ao ponto de meu pai não precisar mais fazer este trabalho.

Minha contribuição de fato nas eleições foi em outro período, quando a escola em que eu trabalhava passou a ser zona eleitoral. Como funcionária municipal, dedicava 8h de trabalho neste dia, orientando pessoas para que todos os eleitores pudessem votar tranquilamente. No final do dia via renascer o sentimento de outrora: o de dever cumprido.

Guardei na memória este trabalho voluntário em torno desta mesa que fez parte do cenário na rua de casa e destes momentos de quando as eleições eram consideradas importantes por todos os cidadãos. Hoje, estou aposentada e não trabalho mais nas eleições, mas, sempre que elas acontecem, o cenário do passado se torna presente e tenho saudades, acreditem!

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