Chácara Santo Antonio da terra preta

Na década de 1950, no seu início, eu já morava na Vila das Belezas (ainda de colo). Minha madrinha D. Olga e seu marido Sr. Pedro, meu padrinho Sr. José e sua esposa Cecília moravam na Chácara Santo Antonio, onde compraram terrenos e eram vizinhos na Rua Mário Enzio Pasqualucci, paralela a Rua da Paz. Esses padrinhos vieram com meus pais no mesmo navio da Europa após a guerra com outros conterrâneos, porém a amizade maior foi com eles, por isso me batizaram, e parente mesmo nenhum veio, mesmo porque vieram com pressa para se livrarem do fim da guerra, muitos foram para outros países.<br><br>Meus pais, com menor poder aquisitivo, veio parar no fundão da Zona Sul, após a ponte João Dias. Como não tínhamos parentes, apenas compadres, meus pais só tinham eles para visitar, pois aqui eles não gostavam muito de vir, pela distância e mata fechada, creio que uma vez por bimestre meus pais iam lá e me levavam, antes no colo e depois já andando, continuavam indo lá na Chácara Santo Antonio.<br><br>Geralmente iam aos domingos, pois precisavam conversar, trocar ideias, relembrar o país de origem e sempre em polonês, pois o português estavam aprendendo ainda e eu, como sempre, "boiava", não entendia nada e não fazia questão de aprender. Apesar de a Chácara Santo Antonio já ser um bairro mais evoluído que os demais, após a ponte João Dias ainda tinha muitas ruas de terra e um pouco delas de paralelepípedo, pois a região é de várzea e pior ainda de terra preta, grudenta, meus padrinhos, como todos os do bairro, tinham um poço que dava água a seis metros de profundidade, comparando-se com o nosso bairro aqui no fundão era de até 28m de profundidade e de água boa. Eles, pelo contrário, não podiam ou não deviam beber aquela água, pois era insalubre, usava mais para limpeza geral, mas já havia naquela época o plano de água canalizada que para mim, criança, era uma novidade incrível, girar uma torneira e sair água. <br><br>Como criança acostumada na rua, ali não fugia do hábito, porém com uma complicação: vinha para casa de meus padrinhos todo sujo de barro preto. Onde morava, no máximo, chegava empoeirado, devido ao nosso bairro ser alto e de terra firme e vermelha.<br><br>Certa visita aos meus padrinhos, a empresa de água e esgoto estava abrindo a rua para canalização de esgoto, a rua ficava entulhada daquela terra preta e molhada em certos pontos, até arenosa e sem nenhuma firmeza e por isso as ruas do bairro todo são calçadas com paralelepípedo até os dias de hoje. Eu não queria saber, sempre escapava para brincar, até que cai em uma vala daquelas, eu de branquinho fiquei negrinho e não faltaram as palmadas de meus pais pela traquinagem.<br><br>Quando criança nem podia imaginar que essa situação era causada pela várzea, vazante do Rio Pinheiros que ziguezagueava pelo bairro, insipiente ainda, e nas cheias ia expandindo seu leito e deixando seu sinal que era a areia e a terra preta do seu leito, assim como ocorre em todos os bairros ribeirinhos, o bairro era uma autêntica esponja, porque absorvia as águas das enchentes do Rio Pinheiros e ainda deixava vários lagos.<br><br>Hoje, quando passo por ali, depois de meio século lembro-me dessa época, meus padrinhos já algum tempo não existem mais, mas as lembranças desse bairro, dessas ruas ficaram gravadas em minha memória. E quanta diferença o bairro hoje de classe média alta, realmente um bairro nobre, grandes condomínios de luxo próximo a Marginal. Na parte de cima do bairro, já próximo a Av. Santo Amaro, ainda há algumas residências antigas que resistem ao tempo e à especulação imobiliária, mas tem seus dias contados.<br><br>Onde havia as grandes indústrias como Alfa Laval, Monark, Metagal, Bayer, Basf e Phillips hoje no local estão prédios de alto padrão e grandes condomínios verticalizados. Onde era a Sandoz laboratórios hoje é o Consulado Geral dos EUA, na Rua Henry Dunant. Ainda resiste no bairro a Timkem Brasil, Roto Finish, Moto Honda da Amazônia, Pfizer e outras mais.<br><br>Existem já algum tempo grandes empreendimentos financeiros, bancários e empresariais, em um visual internacional, escondendo em seu subsolo a terra preta, onde havia as primeiras casas dos fundadores do bairro. A Chácara Santo Antonio é um bairro da Sub Prefeitura de Santo Amaro e tem como guardião a estátua monumental de Borba Gato, na Av. Santo Amaro, de onde saem as ruas retilíneas e paralelas, como Américo Brasiliense, Rua da Paz, onde tem a boa padaria Periquito de Ouro, com seus pães e quitutes de primeira, onde também tinha a linguiçaria caseira do Sr. Eduardo e duas grandes universidades e a Amcham, Câmara Americana do Comércio, Rua Bela Vista, Alexandre Dumas e Rua Verbo Divino, que ainda hospeda o Seminário e a Rua Antonio das Chagas, Rua Fernandes Moreira, Rua São Sebastião e outras.<br><br><br>E-mail: [email protected]