Parece gozação, mas não é, embora se houver alguma semelhança é mera coincidência de fatos. Nós morávamos em um lugar que era "no meio do mato", sem luz, sem esse negócio de infraestrutura, água era bebida nas bicas, os riachos eram mais ou menos limpinhos. Havia do lado externo das casas uma latrina, mal comparando era um banheiro com "descarga direta", um buraco relativamente grande que os mais antigos chamavam de cloaca. As residências mais modernas já faziam banheiro interno conjugado a casa. Como o local era alto, uns "barrancos adoidados", a residência ficava no topo, havendo um encanamento de manilhas de barro que ligava à fossa, que ficava na parte mais baixa, e… o "estrago" descia por gravidade.
Pois bem, esse é só para elucidar uma situação ocorrida com um de nossos amigos que, como nós, corria pelos arrabaldes locais, embreava-se nos matos, caçava passarinhos, armava arapucas, brincava de bate lata, pega-pega, esconde-esconde, enfim, hoje isso se chamaria interação social!
Nessas brincadeiras quase sempre não olhávamos onde pisávamos e saíamos desembestados, às vezes ficávamos "todo estropiado", rasgados nas cercas de arames farpados, ou aqueles acidentes de tombos tipo "dublê" que sem dúvida faria inveja aos adeptos dessa modalidade. Às vezes, nos arrebentávamos por inteiro, o que nos deixava fora de circulação por um bom tempo, os nossos pais falavam "que estávamos de molho".
Em uma destas desenfreadas corridas malucas, um correndo mais que o outro, escutamos um estrondo de madeira quebrando e em seguida um sonoro "socorro" de uma voz abafada. Todos correram para o "retorno do eco" e eis que vemos nosso amigo segurando nas bordas da fossa todo "lameado" até o pescoço dentro de uma fossa lotada de detritos. Uma "penca" de moleques tentou puxar nosso amigo da "lama movediça", mas quem disse que ele saia. O "acidentado" estava estafado e alguns meninos saíram correndo para chamar os adultos para vir socorrê-lo. Outros atravessaram um caibro no diâmetro do buraco para ele se apoiar melhor e outros foram chamar o poceiro Ismael que trouxe sarilho, corda, enfim, todos os apetrechos de bombeiro improvisado.
Nosso amigo já estava cansado, soltava uns palavrões que arrepiavam os cabelos dos mais velhos. A molecada toda em volta via o resgate sendo feito: uma corda amarrada debaixo do sovaco ligava ao sarilho, parecia que ele estava sendo enforcado. A força do poceiro era enorme acionando o sarilho. O nosso amigo gemia e uma cambada ria a valer da cara feia que ele fazia. Ele com todo o sufoco que passava ainda prometia "sentar a mão" em toda a molecada que risse.
De repente, escutou-se um barulho tipo "desentope pia" e lá veio nosso amigo todo fedido para fora do melaço, aí ninguém aguentou e a gargalhada foi geral. Ele sumiu da rua um mês inteiro, era "fominha" por futebol e até dos campos desapareceu por um bom tempo. Depois do acidente a fossa foi esgotada por um caminhão próprio para o caso e depois foi coberta com uma tampa de concreto e nunca mais ninguém caiu na "armadilha".
Aqui foi preservado o nome do nosso amigo, porque ele pode relembrar do fato e querer vingança como ele havia prometido!
E-mail: [email protected]