Toda vez que novembro se aproxima eu lembro-me de um aluninho que tive, assim que me formei e comecei a dar aulas em um grupo escolar. Cheia de idealismos eu tentava fazendo de meus aluninhos pessoas motivadas, reflexivas e criativas. Para tanto, tentava ensinar-lhes redações e explicava que deveriam sempre terminá-las com uma apreciação, dizendo se gostaram ou não, se tinham alguma crítica a fazer, uma colocação, um comentário.
Como eram pequeninos, eu dava as idéias de como terminar suas historinhas – "que lindo dia!”, "amo passar os dias em minha casa", "estes são meus melhores amigos", "o verão é tão gostoso", etc. O aluninho que citei terminava suas histórias com um viva – " Viva D. Pedro I!", "Vivam as férias!", "Vivam nossos professores! " e por aí seguia até que me deparei corrigindo uma de suas redação sobre o dia dos finados . Esta terminava com " Vivam os mortos!"
Nessa época meus mortos eram quatro. Um avô italiano que nem conheci e que estava em uma capela no Cemitério do Araçá; uma avó espanhola enterrada no Cemitério da quarta parada; um tio espanhol que morrera de tifo, aos 26 anos, chamado Juan, e que estava enterrado no Cemitério de Vila Mariana onde também havia uma capela de um bisavô com esta inscrição aterrorizadora, "como te ves, me vi: como me ves, te verás; roga a Diós por mi". Este epitáfio sempre me assustava e eu rezava por ele e por mim.
Desde menina, minha avó costurava roupas novas para todas as crianças e no dia de Finados estreávamos roupas novas e as meninas também sapatos de verniz com pulseirinhas, que de novos acabavam dando bolhas nos pés. Os vestidos de organdi pespontados picavam e os laços na cabeça acabavam despencando. Era desconfortável. Íamos todos de bondes com letreiros indicando o percurso e o cemitério e comprávamos flores antes de entrar neles.
Tios e tias que mal conhecíamos nos apertavam as bochechas exclamando que estávamos crescidos. Sentados nos túmulos os adultos conversavam e a criançada saia pelos túmulos lendo todas as datas de nascimento e de morte. E só. No outro ano tudo se repetiria. Retornando ao aluninho, eu resolvi tirar a estrelinha que colocaria no início de seu texto que significava um texto perfeito. O tal de viva os mortos, que para mim estavam todos bem mortos, enterrados e me eram ilustres desconhecidos, me parecia deslocado do contexto. Dia seguinte comentei que seria melhor terminarmos com saudades, tristeza, ou o tal de que estejam dormindo o sono eterno…
Hoje, tantos anos passados, tantos mortos enterrados, alguns até cremados no Cemitério de Vila Alpina, cujas urnas esvaziamos lá nos Jardins, pois hoje eu daria um dez com estrelinha dourada para aquele meu aluninho que deve ser um homem nestes nossos dias. Digo isto com a certeza de que todos os meus mortos não morreram, eles estão vivos aqui dentro do meu coração e, no dia de finados, um após o outro serão por mim homenageados para revivermos momentos queridos.
Passarei o dia todo olhando fotos, rindo com as lembranças alegres, recordando nossos dias felizes, lembrando do jeito que um sorria, do outro que eu tanto admirava, de mais aquele que trocávamos tantas confidências e de mais este aqui que eu tanto amava. Levarei flores e participarei da missa que é celebrada, às 10h da manhã, na entrada do Cemitério da Vila Mariana. E, disto tenho certeza, irei caminhar pelas alamedas e vou parar diante daquele túmulo onde está escrito. “Ninguém morre enquanto permanece vivo no coração de alguém".
Que vivam todos os nossos mortos! Todos os que permanecem vivos dentro de nossos corações.
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