As ligações familiares têm um peso na vida que às vezes nos esquecemos de mensurar quando analisamos este ou aquele fato que nos assombra, mas o bem e o mal passam pela cozinha, pela sala e desembocam na rua. Claro que existem Estruturas e estruturas; diversas, múltiplas. Evidente a genética, porém, acima de tudo – o ambiente familiar.
O cara que me fez desenvolver este prólogo, Anjinho (o nome era Ângelo, em casa era Anjinho, mas nas rodas era zoreia), perambulou pela zona norte de São Paulo nos anos 70, tinha tudo para entrar para os anais da bandidagem, mas não entrou porque morreu cedo, em um bate boca de esquina, uma facada perfurocortante e o sangue afrouxou na enxurrada, pois que nesta madrugada chovia. Sei destes detalhes via "Notícias Populares" que Agora é. Era extremamente mau. Adolescente, não via a hora de "matar um". Para mãe era um anjo, o pai também dizia. Para quem o conhecia de verdade, só matando. Mataram. Fulminaram o mal pela raiz.
Bem depois, correu uma história onde ficou meio que comprovado que "aquilo que era assim não era bem assim", porque, lá nos primórdios, os pais – que ainda não tinham se convertido não sei a que – ao invés de afagos e proteção, tinham como divertimento arrepiar o garoto. Daí o apelido de zoreia, que quase arrancaram a orelha do moleque na cacetada. Essa história é velha e de vez em quando me vem à memória ao ler jornais, ver televisão ou então reler algum livro. Desta vez, quem a trouxe à baila foi um irlandês, talvez o maior dos irlandeses, que um dia escreveu "Pai, não me bate e eu rezo uma Ave Maria pro Senhor. Eu rezo uma Ave Maria" (James Joyce).
E-mail: [email protected]