Estamos em plena época eleitoral. Horário eleitoral na mídia, debates e sempre projetos e mais projetos. Em se tratando de grandes metrópoles, um dos temas mais à baila é o da segurança. O/a (e)leitor(a) pode comprovar por si próprio(a): todos têm pelo menos uma história de assalto, roubo e às vezes – lamentavelmente – latrocínio para contar. Designando-me de expor meus pontos de vista sobre o tema tão falado e, ainda assim, tão delicado, vou direto ao assunto desta história com h.
Recentemente li o obituário do senhor Kh – e faço questão de preservar-lhe o anonimato, conforme sempre quis em vida e sua família sempre pediu, até hoje, que ele já não se encontra entre nós, ao menos não em corpo físico. Assim refiro-me a ele pela inicial árabe de seu sobrenome – ao penúltimo número da revista Chams.
Todos os clientes assíduos dos estabelecimentos comerciais das ruas: Direita, Oriente, 25 de Março e Ladeira Porto Geral, conhecem este episódio, contado e recontado, narrado, discutido e rido à exaustão. No entanto o que poucos sabem é que se trata de uma história e não de uma anedota, apesar de seu fundo tragicamente cômico, ou comicamente trágico, se os leitores o preferirem. Se o caso já houver sido exposto, seguramente com muito mais propriedade do que eu possa fazer pelo nosso amigo Miguel Chammas aqui neste portal, peço desculpas, porém não quero deixar de contar a história de meu jeito.
Era o começo da década de 50 do passado século, 52 ou 53, não estou seguro da data. O senhor K, ao átimo um jovem de 30 anos, fazendo a contabilidade de sua loja, em um dos logradouros que assinalei acima e que igualmente não menciono, para aumentar a dificuldade de que identifiquem o senhor Kh, quando entra um gatuno à sua casa. Na época era frequente que se tivesse um negócio ao mesmo imóvel de moradia, por vezes na parte debaixo da construção, por vezes, na parte frontal do mesmo. O ladrão de arma em punho obtesta:
– "Passa seu dinheiro já".
Em uma época em que assaltos eram raros e podia-se andar nas ruas sem o terror que nos toma hoje em dia e é tema das campanhas dos postulantes a cargos políticos, o senhor Kh, sem nada entender, cogitou tratar-se de um pedido de empréstimo e retrucou:
-"Eu cobro 5% (cinco bor cento)" com seu forte acento libanês.
O assaltante, esclarecendo ao inocente comerciante o escopo de sua "visita":
-"Isto é um assalto".
E o senhor Kh, ainda ignaro do que se passava e do risco que sua vida corria:
-"No. Assalto 'banco' que cobra 8% (oito bor cento) de juros".
É quando se ouvem rumores de vozes. Era a família de Kh chegando da missa. O gatuno foge assustado. Os filhos do senhor Kh contam até hoje que, interpelado sobre o acontecido, o progenitor dissera:
-"Um bobre coitado que queria embréstimo. No tinha como bagar e desistiu, coitadinho".
O senhor Kh morria de vergonha de que soubessem que ele era o simplório da história que todos contavam e andava de boca em boca como anedota fictícia. Quando entendeu o que ocorrera o senhor Kh nunca mais deixou de trancar todas as portas com cadeados. O ladrão não lhe roubou o dinheiro, mas a vida nesta metrópole, fascinante não obstante violenta, roubou-lhe algo mais precioso: sua inocência. Algum de nós seria tão inocente hoje?
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