Surgem os vocacionais na rede pública do Estado de São Paulo nos anos 60 com uma proposta educacional revolucionária. Jornais da época falavam em uma nova experiência em educação pública de qualidade, com oportunidade para todas as classes sociais em igualdade. Era uma escola em período integral em que meninos e meninas estudavam juntos. Alunos e professores almoçavam juntos na escola e compartilhavam jogos e brincadeiras nos intervalos do almoço e no recreio. Havia também a gestão democrática com atividades que dava aos alunos a oportunidade de tomarem conta da cantina em rodízio. <br><br>Apesar de ser uma escola pública, era preciso passar por um vestibulinho concorrendo com mais de dois mil alunos do bairro para 120 vagas anuais, dividas entre as classes sociais A, B, C e D. Acabei entrando na primeira chamada, depois de ter prestado a prova de Conhecimentos Gerais e passado por entrevista pessoal que incluía os pais também. <br><br>Vieram as férias. Mal podia aguentar minha ansiedade e expectativa para conhecer a tal escola. Afinal, chegou o dia. Às 8h em ponto entrava pela porta do Ginásio Vocacional Oswaldo Aranha na Avenida Portugal, no bairro do Brooklin. Professores e funcionários da escola nos esperavam na porta para nos receber. Na porta, fui recebido por um aluno veterano para me recepcionar e que seria uma espécie de padrinho. Fui levado até a secretaria para as confirmações de meu nome na lista. Ali, cada um recebia o seu crachá. Após as apresentações, eram passadas diversas informações úteis sobre normas da escola e o estatuto do aluno. Passei grande parte do dia em companhia do aluno padrinho e acabamos fazendo uma boa amizade. Éramos saudados por todos com sorrisos e alegria.<br><br>Recepção aos alunos novos:<br><br>A cada ano a escola do vocacional do Brooklin Paulista recebia uma nova leva de 120 alunos de meninos e meninas que passaram por uma espécie de “vestibulinho” com mais de dois mil candidatos. Isso acabava sendo um motivo de festa. Os alunos foram divididos em quatro classes de 30 alunos, acompanhados de seus padrinhos, e foram levados a explorar e conhecer todos os locais e departamentos da escola e também a conhecer seus profissionais. <br><br>Nessa aventura, fomos levados a conhecer cada ponto da escola, seus limites, seus pontos cardeais. Tudo era feito em clima de amizade. Depois desse primeiro “estudo do meio”, na própria escola, voltávamos para o pátio, onde aconteceriam as práticas esportivas como jogos, ginásticas e danças. Ali chegando, éramos surpreendidos com variadas brincadeiras em um ambiente todo enfeitado de bandeirinhas em uma demonstração de que a escola estava em ritmo de festa para receber seus novos protagonistas e renovação de energia.<br><br>Na quadra central, a direção da escola, professores e alunos veteranos davam as boas-vindas, agora com a escola toda reunida. Uma série de apresentações teve início com o coral de alunos veteranos cantando músicas clássicas e da época, seguidas de diversas bandinhas formadas por alunos das diversas séries. Boa parte da manhã daquele dia foi usada para conhecer a escola, professores e as atividades do currículo.<br><br>Encerrada a fase das apresentações, fomos levados ao refeitório para conhecê-lo e experimentar sua comida. Eram mesas onde cabiam de oito a dez pessoas. Terminado o almoço fomos liberados para o recreio onde praticávamos o ping-pong, jogos de dama, xadrez e outras atividades. Em seguida, tiveram início as atividades recreativas de boas-vindas: as gincanas.<br><br>Diversos tipos de brincadeiras, tendo como base o trabalho em equipe, fizeram parte das brincadeiras. Como, por exemplo, “corrida em parelha” tendo duas pessoas com uma das pernas amarradas à perna da outra pessoa; tênis de mesa em dupla; Cabra-cega em dupla, sendo uma pessoa com olhos tapados e uma orientando a outra para conseguir um objetivo. Havia também a brincadeira das cadeiras: era formado um círculo com 12 cadeiras tendo atrás de cada uma 12 meninos em pé. Onze garotas eram convidadas a se sentarem nas cadeiras ficando apenas um lugar vago. O objetivo da brincadeira: havia um lugar vago em uma das cadeiras que deveria ser preenchido. O menino que estivesse com a cadeira vazia deveria tentar trazer uma menina para o lugar vago. Este deveria tentar com uma piscadela de olho convidar qualquer menina para sua cadeira vaga. O convite era feito por uma piscada de olhos. Um dos objetivos era ter a cadeira de sua responsabilidade ocupada. E, depois de ocupada, mantê-la. <br><br>O gostoso da brincadeira era “roubar” e se assegurar que ninguém roubasse a pessoa sob sua guarda. Empatia, simpatias surgiam e o caçador e a pessoa caçada se juntavam para ocupar a vaga. Era preciso vigiar a cadeira ocupada mantendo as mãos sobre o ombro de quem estava sob guarda. Ninguém queria perder e por outro lado alguém queria ganhar. Era uma brincadeira que aproximava meninos e meninas com interesses mútuos.<br><br>Depois de varias rodadas, éramos chamados para um lanche com refresco. A essa altura praticamente toda escola já estava em descontração geral sem qualquer traço de ansiedade inicial. No dia seguinte a escola retornava à normalidade com a sensação de sermos todos velhos amigos. Não existia na escola uma sala para cada turma. As turmas se deslocavam a cada aula de acordo com cada disciplina. Cada disciplina tinha a sua sala específica. Os alunos se deslocavam por toda escola a cada nova aula. Tudo na escola funcionava em equipe. O sentido de grupo era fortalecido.<br><br>Cada classe de 30 alunos era dividida em equipes de quatro a seis alunos, meninos e meninas, que funcionavam por seis meses. Os integrantes da equipe indicavam quem seria o líder, um relator e um revisor por determinado tempo. Depois havia um revezamento para que todos pudessem exercer a liderança. Meninas e meninos tinham chances e oportunidades iguais. Não havia lição de casa, pois a escola funcionava em período integral. Ali aprendíamos e fazíamos os exercícios e lições que em outras escolas seriam lição de casa. Era na biblioteca onde mais se estudava e pesquisávamos tudo que era estudado. Cada aluno tinha o seu armário onde eram guardados cadernos, uniformes de educação física, material e aventais para as aulas de artes plásticas, artes industriais e ciências.<br><br>Novas aventuras aconteciam a cada dia, pois as aulas não se limitavam às salas de aulas. As aulas de artes plásticas poderiam acontecer em qualquer lugar da escola e também fora da escola, nas calçadas ou, em alguma praça. Além da pesquisa bibliográfica, a pesquisa de campo era forte. Fazíamos estudo do meio, primeiramente pesquisando o que existia no bairro, depois fazíamos visitas aos locais estudados para ver “in loco” como tudo acontecia. No primeiro ano estudava-se o bairro e a comunidade do entorno. No segundo ano, estudava-se o Estado. No terceiro o Brasil. E no último ano, os estudos eram sobre o mundo. Duas turmas inteiras estiveram na Bolívia.<br><br>Ao final de cada viagem de estudo fazíamos relatório em equipe de nossas observações que eram expostas para a classe toda. Depois se juntava o conteúdo do restante das outras turmas e ao final era feita uma síntese para a escola toda em uma assembleia no Pátio da Escola ao final do ano. Os pais dos alunos eram convidados e a comunidade também, para compartilharmos o trabalho produzido. Todo esse conhecimento adquirido era transformado em monografias para servir de apoio e pesquisa para os colegas que viriam no ano seguinte. A cada momento uma nova aventura poderia acontecer.<br><br><br>E-mail: [email protected]