Churrasco à La Carte Paulistana

São Paulo é uma mistura salutar de etnias com folclores variados, além de uma culinária multiforme, somos todos, um pouquinho cozinheiros, logicamente com respeito ao padroeiro São Benedito, protetor da cozinha e toda alquimia dela advinda.

Éramos um grupo que se reunia para "trocar ideias", embora disso sempre resultasse em muitas gargalhadas e nada de concreto, verdadeiras paródias. A prole crescia e nós todos tínhamos na semana nossa atividade de “prole-tário”, somando a isto um complemento nos finais de semana: um "bendito churrasco" na casa de alguém.

Claro que esse alguém, ao liberar o espaço, arcava com toda a bagunça que seria parte deste convescote, era mesmo um lazer à parte, pois todos os comensais se dirigiam ao lugar determinado, um bando em revoada. Havia uma "organização" a ser respeitada, embora nem sempre desse muito certo, e isso era a graça da festa: o improviso.

Sempre sobrava para as mulheres prepararem os acompanhamentos, uma "pancada" de vinagrete, um arroz com um monte de coisa de acompanhamento, maionese, lavar isso e aquilo, cuidar dos panelaços fumegando no fogão e, além disso, tomar conta da gurizada, "voando" por toda a parte, verdadeiros "anjinhos" sem asas.

Para os marmanjos "especialistas" em churrasco "sobravam" os preparativos da churrasqueira. Era um ritual aonde argumentavam todos os entendidos em picanha, costela de ripa, embutidos apimentados, costelão, contrafilé, do qual não éramos "contra" e sim a "favor", todas as ditas carnes acompanhadas de boa dose de "filamentos gordurosos", muito bom para o colesterol!

Lá vinha toda essa "tralha" provinda das encomendas prévias de algum dos açougues do lugar, aliás, os únicos realmente entendidos no assunto de carnes. Cada qual já maquinava a infalível receita costumeira do preparo certo, mesmo que não fosse o modelo do consenso dos grandes entendidos em gastronomia. Uns queriam temperar com vários condimentos, outros queriam fazer a moda gaúcha, sem nunca ter visto o modelo do sul, outros queriam salgar e esperar a carne "puxar" o sal grosso, outros nem queriam saber disso ou daquilo, queriam mesmo era "ver" os "finalmente", antes das providências dos preparativos, enfim cada um possuía uma receita infalível.

Havia também variados modelos de churrasqueiras que fariam inveja a grande arquitetura disponível: um latão cortado ao meio, outros improvisados rapidamente com tijolo de alguma construção, outros com ventilador para acender braseiro, outros com fundo de madeira com telhas de barro em cima, mas esta foi reprovada na primeira experiência, pois pegou fogo na madeira e desabou a churrasqueira. Tinha um modelo que era ambulante, quando alguém "fora do grupo" pedia a "danada" emprestada, uma procissão de acompanhamento a seguia.

Existiam algumas churrasqueiras profissionais, que possuíam alvenaria refratária montadas por alguma empresa do ramo, mas elas não davam o prazer do ritual do improviso, e muitas vezes eram rejeitadas e ficavam de lado para os felinos descansarem e dormirem dentro!

Pois bem, fora isso, havia a ala dos entendidos em bebidas, sempre saia algum "arranca rabo", havendo um árbitro para mediar o conflito, pois uns queriam Brahma outros Antártica, então tinha que ser decidido no par ou ímpar, ou ganhava os mais "parrudos" e todos sabiam que teriam que assumir e consumir as "danadas" bem geladas. Hoje não haveria muitos problemas para a questão, bastava pedir uma AmBev, dona das duas marcas, aquelas mesmas que antes davam muitos debates “filho-sóficos”. Há um detalhe: a "saideira" nunca era a última, sempre a penúltima, demorava sair!

Plagiando o folclórico e antigo presidente do Corinthians, Vicente Matheus, que disse certa vez em uma festa do time: "Pede pra Antártica mandar umas Brahmas", nós saboreávamos ambas, as preferências eram "liquidas"! E no mesmo pensamento profético do referido pensador contemporâneo "quem está na chuva, é para se queimar", estávamos preparados para tudo, até guarda-sol enorme da Kibon era arranjado para proteger intempéries não previsíveis contra chuvas não convidadas, ou lona de caminhão fazendo uma tenda.

A gurizada, que era em grande número, sempre reclamava dos refrigerantes, que não eram os desejados para uma leva muito grande de formiguinhas, grandes devoradoras de açúcar, acredito que eram elas que mandavam nessa "bagunça organizada". Sempre havia alguém fazendo aniversário e estavam todos preparados para uma "lambuzeira" de bolo, brigadeiros e outras guloseimas. Certa vez uma das crianças aniversariante desejava como presente que na festa tivesse um cavalo, pois bem, conseguimos de um amigo um alazão de qualidade, o bicho era perfeito para a ocasião, foi o centro do evento e assunto para "mais de metro" durante um mês todo.

O churrasco era disputado: um era especialista em colocar a carne no espeto, outro sabia salgar, outro era responsável pelo fogo, que era um ritual, pois havia certas "manhas" como trança de jornal, "pão duro" embebido em álcool, embebendo-se junto um gole das mais perfeita destilaria de marca desconhecida, assim pegava fogo os dois juntos, carvão e "carvoeiro", digo churrasqueiro. Mais tarde inventaram aditivos ao carvão e resistências elétricas, mas nunca houve consenso de aceitação destas modernidades, queríamos o velho e tradicional modelo "quanto mais complicado melhor"!

Depois chegava o abanador com tampa de panela e por fim para completar o ritual da disputa entre o carvão teimoso e meia dúzia de especialistas, começava a fumaça desejada da carne sendo defumada e assada, que por vezes torrificava, ficando tostadinha. De todo jeito que saísse a carne seria cortada também pelo "especialista do corte" em "direção das fibras", sem se esquecer de contar com o afiador de faca, enfim um belo time, embora cada qual tivesse seu time de futebol predileto, coisa do coração, diferente um do outro!

As "donas do pedaço" questionavam se não havia carne magra, um franguinho, coisa sem muita gordura. Ora todos os marmanjos eram especialistas em carne gorda, "empesteada" de banha, pendendo aquele produto de colesterol bonito tiritando e gotejando na brasa. No "frigir dos ovos", todos tinham razão, até o outro questionar, iniciando um debate entre as "verdades relativas" e "mentiras absolutas", vencendo como última palavra todas as esposas unidas e coesas nas opiniões, onde sim era sim e não era não!

Aqueles que "engoliam fumaça" na boca do fogo eram responsáveis diretos pelo churrasco e não podiam "errar muito", pois uns queriam bem passado, outros mal passado, outros no ponto, enfim cada qual tinha uma preferência e era respeitada a opinião desde que aceitassem como a coisa saísse e era ofertada pelo garçom desajeitado.

Era uma organização muito bem desorganizada, tudo estava no seu lugar, todos falavam, era um “zum, zum, zum” incompreensível que todos compreendiam ou fingiam compreender, balançando vez ou outra a cabeça em tom afirmativo, onde todo discurso era abafado pelo som de um “sambinha” do Martinho da Vila ou um baião do Luiz Gonzaga, ou um "oi nóis aqui traveiz" de Adoliran.

As fotos hoje fazem parte de um momento salutar com belas recordações onde nós "passamos pelo tempo". Hoje a festança não existe com a mesma intensidade, pois temos algumas regras a seguir por prescrições médicas, onde os maiores carnívoros viraram adeptos "vegetarianos contumazes", conhecem todos os tipos de saladas e medem calorias disso e daquilo. Por causa de nossas extravagâncias temos que controlar o colesterol, a hipertensão e a protuberância estomacal que nos obriga a fazer caminhadas constantes para evitar a "obesidade" em busca do "peso certo". Tudo valeu à pena e foram momentos inesquecíveis por isso faz parte desta "micro-história".

Advertência: não façam isso em casa, é muito perigoso e todos vocês tem algum modelo mais eficiente para proporcionar a alegria e convivência familiar, "cada um" com seu "cada um" de modelo de churrasco paulistano!

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