Ficar velho

A conjugação do verbo "ficar" e os sinônimos de estar, ser, for, tornar-se velho era para o Brasilino uma dádiva, um consolo. O modo e o tempo verbal expressavam o momento em que se falava ou pensava. A declinação do verbo traduzia uma clara certeza, um fato considerado afirmativo; ele trazia-lhe um pouco de conforto espiritual porque todos eles, doutores e ignorantes, ricos e pobres, altos e baixos, bonitos ou feios, fracos ou poderosos, rainhas ou reis, todos sem exceção se encaixavam nessa declinação. O verbo colocado antes do sujeito da frase traduzia a condição de cada um dos milhares de Brasilinos espalhados pelo território nacional. <br><br>Olhou para o livro de português que havia comprado para a filha, leu a declinação e percebeu que no sujeito da frase o verbo vem em primeiro lugar: fico velho, ficas velho, ele ou ela fica velho, ficamos velho, ficais velho, ficam velho. O verbo concorda com o termo do sujeito da frase. Perdoe-me algum professor de português, se eu por acaso estiver errado que me corrija. Porém, aquilo era um fato evidente. <br><br>Diante da porta do consultório do médico ele parou e ficou olhando o nome do urologista de plantão. Tinha saído das lonjuras da zona leste, às 4h da madrugada, pegou o primeiro trem do metrô na estação superlotada de Itaquera e veio até o Hospital das Clínicas na zona oeste em busca de tratamento para os problemas da próstata. Ele acabara de completar 75 anos de idade. Hoje, era o aniversário da Josefina, sua filha caçula, que estava completando 30 anos de idade. Ficara viúvo fazia dez anos; a mulher morrera de um câncer de mama, depois de um sofrimento de cinco anos de idas e vindas ao Hospital Pérola Byington, pela total ausência do Estado no posto de saúde onde ela costumava passar e por falta de atendimento adequado, o que facilitou a disseminação, a hospedagem e o avanço da doença.<br><br>O Brasilino pensou: “Hoje, tinha também que pagar uma conta de luz na casa lotérica próximo de sua residência”. Olhou para os valores impressos na cartela da conta: R$ 117. Durante a viagem no metrô, depois de amargar uma hora inteira em pé, fez a baldeação para o metrô Clínicas. Olhou a papeleta e ficou estupefato com o volume dos impostos contidos naquela simples conta de luz, R$ 40 iam diretamente para os cofres do governo. Ele estava indignado. A assistência médica do Estado era uma porcaria; os exames necessários demorariam quase seis meses para serem marcados por falta de vagas no Sistema Único de Saúde (SUS). Aquilo, sem dúvida, era uma aberração, uma vergonha, um pouco caso, como se as pessoas que ali estavam fossem um amontoado de lixo, uma escória da sociedade; era ele ali também mais um no meio de tantos outros otários pagadores dos impostos, sem nenhum retorno. <br><br>Pensou nos políticos que saiam da ilha da fantasia em Brasília e que vinham buscar tratamento nos hospitais de primeira linha de São Paulo. Aquilo era, sem dúvida, uma bofetada na sua cara. Ficar velho e adoecer aqui no Brasil são coisas proibidas. “- Que morra o velho”, pensou. Mas o fato não era bem assim. Ficou sabendo que em alguns países do mundo civilizado as pessoas idosas eram tratadas com respeito e dignidade. Aqui no Brasil, ao contrário, apesar do Estatuto do Idoso, quase todas as pessoas, invariavelmente, rogam-se no direito de exigir, mas ninguém se acha no dever de prestar respeito aos mais idosos. É a lei dos mais fortes que, no entanto, se durante a caminhada pela vida não morrerem no meio da travessia do caminho, um dia também eles fatalmente lá chegarão. Mas, os Brasilinos de plantão tinham uma parcela de culpa, sempre votando nas pessoas erradas.<br><br>Mas, haveria alguém que realmente valesse à pena e pensasse no povão? O Brasilino tinha lá suas dúvidas. Fez as contas. Era eleitor há 50 anos e durante todo esse tempo percebeu que havia votado errado. A coisa era sempre a mesma; os políticos de plantão ofereciam sempre afirmativas mirabolantes: "Se eleito, irei dar mais saúde para o povo, mais construções de hospitais, mais postos de saúde, todos eles super equipados com o que há de mais moderno na medicina atual para atender as demandas da população". Balelas! Quando eleitos se esquecem das promessas que fizeram. Cadê o dinheiro da CPMF cobrado de todos nós, os Brasilinos da vida, durante dez anos? Sumiu! O doutor Jatene, quando percebeu o engodo em que tinha se metido, pegou o seu boné e se mandou. <br><br>Apesar de tudo, o nosso Brasilino estava ainda confiante diante da porta do consultório médico. Sentou-se em um banco duro na sala de espera e ficou lendo o livro de português da filha enquanto esperava para ser atendido. Seu amigo, o José Vitorino, estava certo. Nos anos 80, em que o país estava prestes a pedir moratória, resolveu se mandar para os Estados Unidos. Quando indagado pelo Brasilino porque pretendia ir para fora do Brasil, respondeu: <br><br>- Quero dar um futuro melhor para os meus filhos. <br>- Mas, Zé, você não está bem aqui? Afinal você é um engenheiro do IPT e da USP! Te mandaram embora? Não? E então homem de Deus, porque vai tentar a vida lá fora? Ainda acho que você vai se dar mal. <br>- Não vou não! Se acaso não der certo eu volto! <br><br>E foi. Hoje, o Brasilino, recordando do dia em que o amigo Zé Vitorino foi embora, já há quase três décadas, ele tem recebido, com frequência, correspondência pela internet de como a família está vivendo lá fora. O filho mais velho se formou em Engenharia Aeronáutica e Elétrica pela Pardue University, localizada em West Lafayette, no Estado de Indiana; o rapaz casou-se com uma moça americana, professora de robótica na mesma universidade. O outro filho está morando na Califórnia, formado em engenharia civil; está casado com outra moça americana, formada em fonoaudiologia. E o nosso Zé Vitorino o que estava fazendo por lá? Até o ano retrasado era consultor da Boeing americana, viajando com frequência de Nova York para Londres e Ásia, para divulgar aeronaves menores que o 747, como o birreator 787 na venda de grandes encomendas. <br><br>O Brasilino pensou: “Esse é o nosso sortudo José Vitorino que foi tentar a vida lá fora e se deu bem”. E ele aqui sentado, esperando naquele banco duro do Hospital das Clínicas por uma simples consulta médica. Era revoltante aquele descaso com os humildes cidadãos. Porque ele também não fora tentar a vida lá fora? Acho que se acovardou porque teve medo de enfrentar uma aventura. Lembrou-se, com bom humor, quando escreveu uma carta para o amigo Zé Vitorino intercedendo por uma vaga de coveiro no cemitério de South Bend, uma cidade ao norte do Estado de Indiana, próximo à região dos Grandes Lagos onde o Vitorino estava morando. Riu da resposta do amigo, dizendo na carta resposta que lá os sindicatos eram muito fortes e que eles, no momento, não estavam contratando estrangeiros. Além do mais, o Brasilino não iria aguentar o intenso frio, porque no inverno a temperatura lá chegava até 20 graus abaixo de zero e enterrar pessoas nessas condições não era muito fácil. Aquilo era apenas uma brincadeira. O nosso Brasilino não estava interessado naquela profissão.<br><br>Aquela interrogação na escrita da carta era apenas uma gozação. Na época, o Brasilino estava empregado e muito bem empregado em uma multinacional francesa da Indústria Química e Farmacêutica. Ah! Uma recordação fez amainar um pouco o espírito de revolta do Brasilino. Lembrou, com tristeza, do professor Euriclides de Jesus Zerbini, quando da última vez que lhe tinha falado ele estava deprimido porque tinha acabado de perder um filho em um acidente de automóvel, quando foi ajudar uma moça a trocar um pneu na Avenida Nove de Julho e um carro em alta velocidade o pegou em cheio causando a sua morte. <br><br>O Brasilino lembrou também do Doutor Renato Aloe, um amigo seu que em uma ocasião lhe tinha dito que "havia uma crise na medicina; a ciência médica fez tanto progresso nas últimas décadas que, hoje, praticamente não existe mais nenhuma pessoa sadia". Essa era uma frase dita por ele, no entanto, era ela baseada em um pronunciamento de um pesquisador americano. "Hoje estamos – disse-me ele – diante de um fato estranho. Mais e mais pessoas adoecem de mais e mais doenças. Fala-se abertamente de uma crise na medicina. A medicina acadêmica, por incrível que pareça, não se preocupa com as prevenções das causas das doenças e, por comodidade, deixa a doença aparecer e trata apenas dela, tendo o SUS que investir uma fortuna no seu tratamento, enquanto seria muito mais barato a sua prevenção". O doutor Renato Aloe estava coberto de razão quando lhe fez essa afirmação. O Brasilino ficou pensando como as coisas haviam mudado desde o seu tempo de propagandista de produtos farmacêuticos, para pior é claro! Ah! <br><br>Lembrou-se do Victor Siaulys, seu amigo de infância e de juventude, quando se lançou em uma empreitada de construir um novo laboratório farmacêutico (o Aché) e se deu muito bem. Tudo isso passava rapidamente pela sua cabeça. Quantos congressos médicos ele havia intermediado com grandes laboratórios internacionais… Quantas viagens ele não conseguiu para dentro e fora do país nos congressos de medicina. Agora estava ele ali, sentado naquele duro banco de hospital, sem lenço e documento, precisando de um simples atendimento médico para os seus males da velhice. Um dia, esses mesmos senhores também ficarão velhos e inconsolados como o nosso Brasilino, que continua esperando pelo atendimento médico, torcendo para que o processo não evolua para pior, porque o seu direito à saúde lhe tem sido negado pelo Estado, um grande cobrador de impostos. <br><br><br>E-mail: [email protected]