São Paulo faz parte da minha história

Quando cheguei à cidade de São Paulo aluguei uma confortável casa no bairro do Mandaqui. Havia chovido, olhei as folhas encarquilhadas que boiavam nas poças d´água; quis chorar, cerrei as pálpebras, senti-me impotente, as lágrimas haviam secado,estava frio, ficaria mais leve se chorasse. Observei meu filho de um ano de idade – o meu marido sem emprego – entrei em casa – abri as vidraças e assomei à janela. A grandeza de São Paulo deu-me força.

Havia acabado de chegar de Portugal. Estávamos em 1964, imperava a ditadura militar, cujo regime me assustava. No entanto, se dizia que São Paulo era a cidade que mais crescia no mundo. Então pensei: Tentarei crescer com ela.

Embalados no sonho da casa própria, eu e meu marido começamos percorrendo ruas e vielas até encontrarmos em construção uns sobrados no Brooklin Paulista que nos agradaram. Compramos um, ainda moro nele. A rua era de terra, não havia esgoto nem água canalizada. Um poço no quintal abastecia a residência através de uma barulhenta bomba hidráulica.

Esta história é mais longa, mas vou abreviá-la, pois muitas coisas se passaram na minha vida. E São Paulo me dando força.

Cruzando a minha rua, espraiva-se preguiçosa e despretensiosa Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini. Um córrego a separava do outro lado do bairro, havia umas pontes improvisadas e estreitas precisando de certo equilíbrio para atravessá-las.

Espalhavam-se ao redor algumas chácaras. O campo ao lado de minha casa era repleto de eucaliptos. No meu quintal um caramanchão de madre-silva exalava um perfume que combinava com as noites de luar e com o céu estrelado.
Os vizinhos se reuniam após o jantar. Enquanto isso as crianças brincavam na rua, existia um não sei quê de parentesco entre todos.

Lembro-me da inauguração da Praça Gentil Falcão. Na esquina havia um matadouro, onde se ouvia o cacarejar das galinhas, e se cumpria "a lei divina" da "cadeia alimentar"; as coitadas eram mortas á frente do freguês. Vendiam-se ovos também. Hoje lá é o Banco Safra.

Crianças aos domingos empinavam pipas, outras andavam de bicicleta, os menores adoravam jogar pedrinhas no córrego.
Fecho os olhos… Refugio-me nas boas lembranças… Consigo até ver poesia ao recordar, as folhas encarquilhadas que boiavam nas poças d´água no dia em que cheguei à cidade de São Paulo.

Eis aqui um pequeno retrato antigo desta cidade tão cheia de histórias.

Hoje a Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini não conserva nem uma sombra da simplicidade de outrora é quase imponente. Arquitetura moderna – edifícios gigantes – hotéis – escritórios – movimento – é o progresso!

E-mail: [email protected]