De meus 64 anos e meio de paulistano, de quando nasci na Maternidade São Paulo e meus pais se mudaram do Glicério, tive a alegria de morar os primeiros 20 anos em Vila Mariana. Assim transcorreram a infância, a adolescência e o começo da mocidade. Melhor bairro, impossível. Morei em uma casinha térrea muito simples, mas aconchegante, de aluguel. Bairro que também abrigava proletários, como minha família.
Minha infância, Vila Mariana dos anos 50. A 23 de Maio, então, nem passava de um ínfimo trecho de terra e sem iluminação – mas com belas casas – entre Livramento e Curitiba. Da Cubatão até o Ibirapuera aquilo era um grande vale coberto de mato ou de chácaras. Minha casa tinha grande quintal: árvores frutíferas, muitas plantas e borboletas de montão! Terra fértil. Também pudera: o quintal confrontava com uma das chácaras – na verdade, eram várias, contíguas, sem separação – que formavam um enorme polígono: José Antônio Coelho (eu morava no número 736), Eça de Queiroz, Artur de Almeida, Oscar Porto (em frente ao campo de terra do Olimpicus), Tomás Carvalhal e Tutoia.
Não obstante, bairro residencial, como é sabido, Vila Mariana abrigou muitas fábricas como a Walita, Colgate-Palmolive, Bozzano e Laboratório Clímax, além de oficinas e intenso comércio e serviços, não? A maior de todas deve ter sido a Estamparia Caravelas, quase defronte onde eu morava. E fabricona aquela que ocupava quase um quarteirão, com frente para as duas ruas, Caravelas e José Antônio Coelho. Era uma procissão de operários, homens e mulheres de macacão de brim azul, operários que, de manhã, desciam a rua e, à tardinha, subiam até a Domingos de Morais, em busca de condução, na volta para casa.
Nas noitinhas de sábado e domingo, um passeiozinho tolo, eu com meus seis ou sete anos. Eu ficava a semana toda na expectativa. Era quando minha mãe me levava para passear, "ver o movimento" no lindíssimo Largo Dona Ana Rosa. De belos jardins, pipoca e algodão-doce, tudo emoldurado por bela fonte luminosa e o deslumbrante Cine Cruzeiro. Um verdadeiro “footing”, hábito ainda remanescente àquela época noutros bairros também.
Então, na volta para casa, lá pelas 22h, uma visita infalível. Era eu me fascinar com os bondes que retornavam, para breve descanso noturno, na Estação de Vila Mariana. Ranger de ferragens e espocar de faíscas (dos motores e nos fios) deixavam o moleque (eu) extasiado. A Estação – que hoje aquele prédio vermelho bem que poderia ser memória viva de uma São Paulo que mudou – o belo prédio virou pó. Vila Mariana, embora de alma poética, entretanto, foi ingrata com o próprio passado: não cuidou de guardar a estação dos bondes. Tristemente não guardei foto alguma desse fragmento de passado. Mas, muita reminiscência de minha Vila Mariana me povoa a retina e o coração, ainda.
Tal qual a bela revista O Cruzeiro, do meu tempo de moleque, tais lembranças para mim são "a foto que não foi batida". Porém, minha saudade ainda perambula pela Vila Mariana – assim como aos onze anos eu perambulava pelas ruas do bairro, entregador da farmácia do "seu" Humberto e do Gutemberg Saburi, "lendário" farmacêutico… Lá pertinho, a farmácia do ponto final do ônibus da CMTC que, no entanto, no letreiro tinha outro nome: 48 – Paraíso.
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