O início de 1964 não havia começado muito bem. Ouviam-se muitos boatos acerca do regime político do Brasil, mas as conversas geralmente eram desencontradas. Havia um temor geral pairando no ar e os assuntos eram em boca pequena. Os jornais exploravam os temas nas incertezas sobre o futuro do país do governo João Goulart. Comentavam-se que o comunismo seria implantado no Brasil com o apoio de Cuba, país aliado da URSS, nos tempos da Guerra Fria.
Não me lembro muito bem dos fatos, pois naquele tempo eu era apenas aluno de colegial e não entendia direito as movimentações dos bastidores da política e isso não me interessava muito. Contudo, como estudante, mesmo do curso secundário, achava que deveria apoiar as ideias da UNE – União Nacional dos Estudantes. Aliás, não sem uma ponta de emoção porque a situação era cada vez mais iminente de um acontecimento, quando, em 31 de março de 1964, eclodiu o golpe de estado, deixando as pessoas “baratinadas”, não tendo a mínima ideia dos acontecimentos.
Eu, como cidadão, ia levando a vida na medida do possível de maneira normal, trabalhando e estudando, procurando não me envolver com nada que pudesse comprometer a integridade e com isso salvaguardar a minha pessoa, pois sabia-se que com qualquer suspeita poderia acabar nos porões do DOI-CODI.
Corria o ano de 1968 e recebemos um duro golpe com a publicação do Ato Institucional número 5, o famigerado AI-5. Lembro-me que naquela época gostava de ler O Estado de S. Paulo, no escritório, e comprava o Jornal da Tarde, ambos do grupo Estadão. Uma das proibições que o AI-5 impunha era a censura prévia para jornais, revistas, livros, peças de teatro e até músicas. Não quero questionar os fatos históricos que são abundantes e quem quiser aprofundar-se é só pesquisar na internet, mas, como eu disse, lia esses jornais e nas editorias não havia comentários ou análises, nem no Estadão, nem no Jornal da Tarde. O Estadão, por exemplo, publicava intermináveis poemas de "Os Lusíadas", de Camões, e o Jornal da Tarde vinha com receitas culinárias que nunca davam certo.
Qualquer suspeita de movimentos os militares "caíam matando". Certa vez, em Pinheiros, havíamos formado um grupo de estudantes universitários de segundo grau. Chegaram os militares e fomos detidos, levados presos para o Colégio Fernão Dias, em Pinheiros. Os estudantes de colégios foram liberados, mas alguns universitários ficaram retidos. Eram tempos difíceis em que não podíamos esboçar qualquer manifestação. Porém, éramos instigados por artistas e, naquela época, marcou-me profundamente uma música de Chico Buarque "Cálice" cantada em parceria com Milton Nascimento.
Nem sempre de boas recordações a gente viveu, mas tudo era muito alucinante, os estudantes lutavam por uma causa, eram unidos e fortes. Hoje, nada disso acontece, os professores fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem e “ai” daquele que ousar peitar o aluno! A última manifestação de estudantes, que tiveram coragem de se opor em defesa da moral no Brasil, foi com os “cara-pintadas” que derrubou Collor.
Bom, era o nosso tempo em que tínhamos ideais.
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