Foi lá nos idos de 1968, eu tinha o status de recém-casado (me amarrei em 1967), moço ainda, mas para os parâmetros de antigamente já maduro para encarar o casamento. Romântico por excelência e sonhador por gosto, vivia eu sempre buscando novas emoções. Tinha companheiros quase discípulos. Eu inventava e eles me ajudavam a construir os castelos de cartas ou de areia. Muitos castelos se solidificaram, outros ruíram e outros ainda nem chegaram a ser iniciados. Na época, eu ganhava meu sustento em uma revendedora autorizada Ford de nome Lara Campos, que havia emigrado da Rua Augusta para a Rua dos Pinheiros, causando, assim, uma reviravolta considerável nos meus hábitos cotidianos, ou seja, eu que não necessitava de condução para ir buscar o pão de cada dia, fui obrigado a usar o "busão" para me locomover do Bixiga para Pinheiros.
Mais custos a dilapidar meus parcos vencimentos. Como vantagem, tinha mais tempo para conjuminar ideias e bolar planos mirabolantes no trajeto para o trabalho. Meu fiel escudeiro, inseparável companheiro, motorista de favor e parceiro "cultural" era, nada mais nada menos, um cara que só não é meu irmão de sangue, por ter sido gerado no útero de mãe diferente. O José Carlos Munhoz Navarro, para muitos Munhoz e para os íntimos apenas Zé, não fazia ouvidos moucos às minhas ideias e, delas participava ativamente.
Em uma oportunidade, adentrei aos escritórios da Lara Campos e antes de me acomodar à mesa de trabalho, fui até o Zé e disse: – Amigo, acabei de compor uma música maravilhosa que pretendo que seja defendida pelo Francisco Egydio. Sem pestanejar, o Zé me pediu para ouvir a obra-prima e ao final da audição passou a ser o maior fã daquela composição musical, a marcha-rancho Pierrô Nova Sina. Às 18h, saídos do compromisso profissional, esquecemos, eu de voltar ao recesso do meu santo lar de onde, por motivos pecuniários, eu havia saído de manhã cedinho, e ele do compromisso que tinha em comparecer às aulas da PUC onde cursava Administração.
Fomos, debaixo de uma chuva torrencial, em busca da casa do cantor para lhe entregar o "maior sucesso de sua vida" (esta passagem já foi relatada em um antigo texto e pode, muito bem, ser dispensada neste). Pois bem, o cantor não foi encontrado, a música não foi mostrada e nós voltamos para nossas casas, molhados como dois pintos. Eu tive ainda outras tentativas de tirar a marcha-rancho do fundo do baú, meu finado amigo Silas, antes de se mandar para os “States”, me presenteou com a grade cifrada da melodia, que por falta de oportunidades outras foi guardada no meio dos meus papéis.
Pois muito bem, em meados de outubro de 2011, este que vos escreve ouviu uma chamada na TV Globo informando que as inscrições para o Concurso de Marchinhas Carnavalescas de 2012, em homenagem ao centenário de Mário Lago, haviam começado. O sonho, novamente, voltou à minha “cachola”, contei-o para minha consorte que, imediatamente, me incentivou a procurar a partitura e fazer minha inscrição. Animado, com o ego totalmente massageado, fui rever meus guardados e, acreditem, lá no meio de uma papelada imensa estava uma folha de caderno, já amarelada pelo tempo, com a partitura da minha obra-prima e única.
Várias providências tiveram que ser tomadas: a primeira, e mais fácil, foi com que minha mulher, dona de voz lindíssima, aceitasse gravar um CD defendendo a minha composição. Aceita a missão, a letra da marcha teve que ser adaptada para uma voz feminina, etapa também vencida sem grandes dificuldades. Agora, viria a grande problemática: gravar a música para inscrevê-la no concurso. Agitei a família e, nos estertores do prazo de inscrição, conseguimos o beneplácito auxílio do professor Nelter Corrêa, que gentilmente nos ajudou fazendo um arranjo sensacional e gravando um CD. Outra etapa vencida.
Nova etapa: fazer a inscrição via internet. Tentamos várias e várias vezes e nada conseguíamos, o site com problemas não concluía a inscrição. Sem maiores alternativas, fiz uma ligação telefônica para a Fundição Progresso (promotora do concurso), que me solicitou a remessa do material via Sedex, já que o prazo havia sido prorrogado. Assim foi feito e mais outra etapa estava vencida. Agora a expectativa era vencer os dias seguintes até 25 de novembro, quando o resultado das dez músicas classificadas seria anunciado no site da fundação. Engolindo ansiedades, fomos vencendo os dias.
Eis que dia 25 raiou, acordei às 6h da matina, fui trabalhar consciente de que teria que esperar as 12h. Agonia. Venci-a! Já em casa, a Sonia abriu o site, localizou a relação dos resultados e um tanto quanto decepcionada, tentando me encorajar, disse: “- Amor, ainda não foi desta vez…” Achando que não foi daquela vez e não seria de outra, encerrei ali minha carreira de compositor. Até outra hora!
E-mail: [email protected]