A Torre do Banespa

Lembro que, mais ou menos com 18 anos de idade, trabalhava em uma loja de rebolos, esmeris e ferramentas na Rua Vitória, no centro da cidade. Tinha uma amiga no trabalho chamada Edna e ela morava na Vila Brasilândia, perto do ponto final do ônibus Vila Iório. De vez em quando, acompanhava-a até a sua casa e ficávamos conversando, imaginando nossas vidas no futuro, ela falava do seu namorado, eu da minha namorada, do que pretendíamos fazer e assim por diante.

Naquela época, em 1974, era uma viagem ir para a casa dela, tínhamos que pegar o ônibus na Praça Ramos de Azevedo e levava de uma hora e meia a duas horas para chegar lá. Não lembro mais o nome da avenida onde ficava o ponto final, mas era no alto de uma ladeira, tinha uma padaria e algum comércio em volta e uma coisa que chamava muito a minha atenção era a vista que tínhamos da cidade daquele ponto. Dava para ver praticamente toda a Avenida São João e no final dela o imponente edifício do Banco do Estado de São Paulo, mais conhecido como Banespa.

Muitas vezes saí da casa dela já de madrugada e, com certo receio de andar por aquelas ruas escuras e sem ninguém, ia pegar o ônibus de volta a fim de ir para a minha casa, mas nunca aconteceu nada, o máximo foi ter que correr de algum cachorro mais nervoso. O tempo passou e aquela lembrança da imagem do prédio do Banespa sempre esteve presente na minha mente. Já com 30 anos, casado e pai de um menino, acabei fazendo um concurso público para trabalhar nesse banco e para minha surpresa quando fui ver o resultado, além de ter passado, fui designado para trabalhar justamente naquele prédio que há tantos anos estava presente na minha imaginação.

Apesar de tudo, foi uma decisão difícil de ser tomada, pois tinha um bom emprego, com um salário até que razoável e indo para o Banespa iria ganhar praticamente um terço do que ganhava na iniciativa privada. Mas a instabilidade econômica daquela época, com o plano Cruzado que não tinha dado certo, falou mais alto e achei melhor trabalhar em um lugar onde teria alguma estabilidade. Acabei tomando posse no dia 17 de setembro de 1987 e, mais uma vez para minha surpresa, tive que entrar em greve menos de 15 dias após a minha admissão. Uma atitude como essa era algo tão distante da minha vida profissional até então, que também foi muito difícil tomar mais essa decisão. Os dias foram passando, a tensão pela situação era muito grande, mas logo se chegou a um acordo e a greve terminou.

Lembro que o grande saguão do térreo tinha recebido algumas obras que o descaracterizou e havia lá um mezanino onde ficava o pessoal da retaguarda da bateria de caixas que logo depois foi mudada para a Rua Boa Vista, 221. Mas, estava lá trabalhando, quando chegou um garoto, de uns 15 ou 16 anos, recém-contratado no projeto Garoto Banespa, com uma pilha enorme de papéis na mão, procurando pelo Sr. Mezanino, pois ele tinha que entregar a ele a papelada. Foi difícil conter a risada, mas eu o mandei falar com o nosso supervisor que acabou por mandá-lo para outro setor, dizendo que o Sr. Mezanino havia sido transferido.

Imaginem o desfecho dessa história, que acabou indo parar na gerência da agência, mas no fim todos se salvaram. Havia ainda a estória da loura que andava pelas escadarias escuras e vazias do prédio, diziam que ela tinha morrido ali nos anos 50 e ainda assombrava o prédio. Ninguém acreditava, mas também ninguém andava sozinho naquelas escadas depois das seis da tarde. E assim passaram os anos, trabalhando muito, fazendo brincadeiras, uma grande família, mas uma coisa nunca saiu da minha cabeça, visitar a torre, lá no trigésimo quinto andar, só que o mirante estava fechado há anos e não havia previsão da sua reabertura para visitação. Nem lembro mais quando isso ocorreu, mas foi muitos anos depois, acho que em torno de uns dez anos, mas esse dia chegou e lá fui eu subir naquela torre, que desde a adolescência fazia parte da minha imaginação e que até então não conhecia.

Peguei o elevador até o 26º andar, mais outro até o 32º, então mais dois lances de escada e chegava ao Museu do Banespa, queria subir logo o último lance de escada, mas devia antes cumprir o protocolo da visita, que consistia em assinar o livro dos visitantes, escutar o pouco da história do banco e do prédio, para somente depois subir ao último andar. Tudo isso servia apenas para aumentar ainda mais a ansiedade por aquele momento tão esperado e que nunca chegava. Finalmente, depois de longos dez minutos, que pareceram dez horas, fomos autorizados a subir até o mirante. Valeu à pena. A vista da cidade lá do alto era e continua sendo muito bonita, dá para ver os quatro cantos da cidade, norte, sul, leste e oeste e qual não foi a minha surpresa quando lá de cima acabei por ver o contorno daquela avenida, que há tantos anos atrás fazia com que a minha mente ficasse imaginando como seria estar lá no alto olhando a cidade aos meus pés.

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