Pega o elétrico na Luz

Uma personagem fantástica da minha São Paulo antiga, e que lembro, era um homenzinho bem baixinho chamado Palmiro. Óculos pendurados no nariz, paletozinho apertado, passinho miúdo.

Sempre que perguntava a ele sobre determinado lugar, “como chegar a este lugar”, ele respondia "pega o elétrico na Luz…". Umas vezes peguei, deu certo. Outras, ai eu entrei bem.

Penso que este ônibus dava a ele esta certeza de facilidade no acesso, primeiro porque cortava (ainda corta?) a cidade e segundo, pelo ritmo do ônibus, que era parecido com o ritmo dele (dormia, acordava, dormia e estava no trajeto, lentíssimo!).

Tecnicamente o Palmiro era um “rábula”. Intelectualmente, sabia muita coisa de arte, mas de uma época anterior. Torcia o nariz pras novidades.

Lia o jornal de trás pra frente – não como os orientais – mas da última para a primeira página, e eu nunca soube o motivo. Tomava um conhaque às terças-feiras.

Vivia só, mas tinha uma namorada que visitava esporadicamente, na Casa Verde. Às vésperas de visita-la, comentava que "ia por a prosa em dia".

Toda quinta me convidava pra comer uma dobradinha em um boteco da Duque de Caxias. Uma quinta ele pagava, na outra eu.

O tempo passou, mudei de emprego, nunca mais o vi, mas acho que fiquei devendo uma dobradinha.

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