Esta é uma história bem inusitada que aconteceu comigo no ano passado e que me deixou muito entristecido. O Natal no calendário caiu no domingo, em 2011. Quando um feriado coincide cair nesse dia, aqui onde moro, ele passa também a ser respeitado como tal na segunda-feira.
No dia 26 de dezembro de 2011 sai, como de costume, para fazer minha caminhada matinal na trilha do parque bem pertinho de casa. A propriedade em frente a minha residência fica em um terreno de três acres e meio. Quando adquiri minha casa, em 1985, essa propriedade era ocupada por um asilo de idosos, depois que o proprietário faleceu, a mesma foi transformada em uma clínica de tratamento para alcoólatras, mas depois de algum tempo a cidade construiu uma escola pública bem na parte de trás desse terreno. Com isso, essa clínica foi obrigada a mudar de endereço, pois contrariava uma lei que não permitia dentro de um raio de 500m de uma escola pública o funcionamento de estabelecimentos que tratem de pessoas viciadas em qualquer tipo de drogas.
Com isso, essa propriedade ficou quase abandonada, pois ninguém mora nela, eu penso que o proprietário deve estar esperando uma valorização para vendê-lo. Então, quase todos os dias procuro recolher pedaços de papéis, latinhas de sodas que caem ou são atirados de automóveis ou caminhões que passam pela rua. A calçada é estreita, deve ter uns quatro pés de largura e entre ela e o pavimento existe um gramado de uns oito pés que é mantido pela cidade. Faço isso para manter inclusive meu lado limpo, pois o vento acaba levando esses papéis se eu não o fizer.
Nesse dia 26 de dezembro, ao recolher o que tinha pelo gramado, encontrei um envelope grande que me parecia um cartão (Hallmark), marca tradicional de cartão muito caro, chega a custar mais de seis dólares cada. A princípio, achei que a pessoa receberia o presente na noite de Natal e já estaria se desfazendo do mesmo sem perda de tempo. Mas, ao recolhê-lo, notei que ele não havia sido aberto e tinha na frente do envelope escrito: To Mom (para a mamãe). Achei muito estranho, pois só podia ter sido extraviado antes de chegar às mãos do destinatário. Joguei o lixo e resolvi abrir o envelope para ver se descobria alguma pista que me levasse ao destinatário, pois poderia pertencer a algum vizinho meu, dependendo do nome da mamãe e do filho na dedicação. Mas, ao abri-lo, para a minha triste surpresa, encontrei a quantia de $200 dólares em notas de $20, típico de uma pessoa que passou por um caixa eletrônico no banco e fez o saque para adicioná-lo ao cartão e presenteá-lo a sua adorada mamãe. Aquele achado provocou um vazio dentro de mim, como se fosse eu que o tivesse perdido. Imediatamente tentei achar indícios a quem ele poderia pertencer e lendo a dedicatória procurava por nomes conhecidos, pois resido nesta área há quase trinta anos. Mas, sem muito sucesso, infelizmente. Para começar, a caligrafia de quem o escreveu era muito ruim e a muito custo consegui decifrar quase tudo, onde o filho idolatrava sua adorada mãe, relembrando os velhos Natais passados, quando ela, sem medir sacrifícios, varava a noite decorando todas as árvores do jardim na frente da casa com infinitas luzes coloridas, muito comuns por aqui. E, completando, ele dizia que nunca soube dar o valor as coisas que ela fez por ele e sua família e pela assombrosa pessoa que sempre foi. Mas, isso não me ajudava em nada na possível identificação dessas pessoas, pois em vez de usar nomes ele usava pronomes, e o único nome que pude identificar era o de Mathew (ou Mateus) no demais era: “Para a mamãe de mim Mathew e papai”.
O cartão em si era muito lindo e o texto impresso em baixo de uma casa coberta da neve comum nas épocas natalinas dizia: “Mamãe, quando eu era criança eu nunca pude perceber completamente que você era o coração do nosso Natal, o conforto da nossa casa, e minha coragem neste mundo”. Enfim, eu tentei por todos os meios possíveis encontrar essa família, para poder fazer com que esse presente chegasse às mãos dessa mamãe adorada, mas sem sucesso. Como esse dinheiro não me pertencia, decidi que eu deveria doá-lo a uma instituição de caridade em nome dessa família desconhecida. E nada melhor que procurar essa instituição em São Paulo, pois tinha uma viagem agendada para o mês de abril de 2012. E, ao chegar, acrescentei minha parte junto aos $200 dólares, dividi por dois e doei uma parte ao Orfanato São Judas Tadeu, fundado pelo Padre Gregório Westrup, nos anos 50, quem eu conhecia e doava desde quando era taxista, e a outra parte a Pastoral da Criança fundada pela Sra. Zilda Arms, atingida naquele terremoto no Haiti há uns anos atrás quando veio a falecer. Que Deus de muita saúde e proteja essa família. Amém!
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