Em 1964 teve início a ditadura militar no Brasil. São Paulo e Rio de Janeiro foram as capitais mais atingidas. Quem tem mais de 50 anos deve se lembrar muito bem desse período negro de nossas vidas. Contudo a década de 60 foi muito produtiva nas artes cinematográfica, musical, teatral e esportiva, apesar da censura. Em 1965, a TV Excelsior realizou o primeiro movimento musical – Festival da Música Popular Brasileira – MPB. Foi realmente um ótimo evento, que aglutinou a juventude de São Paulo, em especial os estudantes.
Nessa época, nossa metrópole tinha um clima bucólico, era aberta e cortês. Com 22 anos, lembro-me que o centro da cidade se delimitava a partir da Praça Roosevelt, pelo início da Rua da Consolação, da Rua Xavier de Toledo, Praça Ramos de Azevedo, Praça do Correio, Avenida São João até a esquina com Avenida Ipiranga (esquina mais famosa de Sampa), que envolvia a Praça da República até a igreja da Rua da Consolação. Dentro dessa delimitação as coisas aconteciam. O Pari-Bar, atrás da biblioteca, se espalhava pelas calçadas com suas charmosas mesas e cadeiras de vime e o acesso era pela Rua Sete de Abril, onde também se localizava o "italianado" cine Coral e a famosa boate Oasis.
Pela arborizada e "afrancesada" Rua São Luis encontrávamos a tranquila galeria Metrópole, com o "frances" cine Metrópole, o charmoso “Cha Moon” no primeiro andar, e no subsolo, os bares Sandchurra, Jogral e Aquela Rosa Amarela. Nossa Cinelândia ficava dentro desse espaço, assim como o conhecido bar Brahma e a gostosa lanchonete Salada Paulista, ao lado do Cine Ipiranga.
Lembro-me também do teatro de Arena, que tantas peças apresentou, revelando ótimos atores e autores. Na programação das emissoras de televisão, tínhamos os programas do Bólinha, do Chacrinha e Silvio Santos(até hoje), novelas e muito humor, com Chico Anísio, Golias, Jô Soares e Walter Stuart. No cinema, o impagável Mazzaropi. As deliciosas pornochanchadas, com Grande Otelo e Oscarito e alguns dramas com os Cafajestes, Noite Vazia e o Pagador de Promessas. Nossa seleção era bi-campeã mundial de futebol e Emerson Fittipaldi, bi-campeão de formula 1.Esse período foi o auge do "Rei" Pelé e do "Rei" Roberto Carlos. A noite paulistana era sensacional. Andávamos pela cidade com muita tranquilidade, sem o medo que nos assola atualmente.
Além dos filmes e peças teatrais, tínhamos os bares e boates. João Sebastião Bar e Edy Sebastião Bar eram templos musicais. E o La Licorne? Era o Bataclã paulistano. E foi dentro desse clima bucólico, que o festival de MPB da Excelcior premiou o jovem compositor Edu Lobo pela música Arrastão, interpretada pela grande revelação Elis Regina, a pimentinha, como era conhecida no meio artístico, por seu gênio forte e por sua personalidade marcante. O clima dentro das escolas e faculdades era tenso. Os operários, com seus salários congelados, também se manifestavam dentro das fábricas, através de seus sindicatos. Greves eram planejadas. A população, contudo, esperava que esse período controverso durasse pouco tempo (ledo engano, pois terminou somente em 1985).
Em 1966, o segundo festival foi idealizado e realizado pela TV Record. Foi superior ao anterior, na final ficaram disputando o troféu de melhor música as composições “A Banda” e "Disparada". Após muita discussão, optou-se pelo empate para agradar gregos e troianos. Chico Buarque e Geraldo Vandré, os compositores, ficaram satisfeitos, assim como o público paulistano. Os interpretes foram Chico Buarque, Nara Leão e Jair Rodrigues, muito sério e compenetrado. No ano seguinte, novo festival. A emissora Record tinha um excepcional elenco de astros e estrelas da música popular brasileira. Foi um evento muito bem realizado, com músicas de ótima qualidade. Caetano e Gil, já conhecidos, participaram com belas composições.
Os mutantes e Rita Lee surgiram como grandes revelações. Na final, foi vencedora a toada Ponteio, de Edu Lobo, defendida pelo próprio e por Marília Medalha. Em segundo lugar Domingo no Parque, de Gilberto Gil, defendida por ele mesmo, acompanhado pelos mutantes e Rita Lee. Em terceiro, Roda Viva, de Chico, cantada por ele com acompanhamento do grupo musical MPB-4. A menção honrosa foi para a canção Sem Lenço e Sem Documento, de Caetano Veloso. O fato inusitado desse festival foi a atitude intempestiva do cantor e compositor Sérgio Ricardo, que apresentou a canção Beto Bom de Bola.
Vaiado pelo auditório, perdeu o controle emocional e, após quebrar seu violão no palco, o arremessou sobre a plateia que o vaiava. Os apresentadores Blota Junior e Sonia Ribeiro ficaram assustados e preocupados com possíveis consequências, pois alguém poderia ser ferido, o que felizmente não aconteceu. Esses e outros fatos poderão ser vistos no DVD – Uma noite em 67.
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