Diversidade na adversidade

Na condição de amputado, há vários anos frequento a Reatch, feira anual destinada ao público portador de deficiências. Os expositores são os mais diversos, vão desde as grandes marcas de automóveis, que além de grandes áreas oferecem veículos para test drive, uma meia dúzia de empresas que vendem cadeiras de rodas e equipamentos para facilitar acessibilidade, equipamentos para deficientes visuais, equipamentos para cegos e surdos-mudos, uma imensa área para a prática dos mais variados esportes, praticados por portadores de deficiência, além de um sem-número de entidades que atendem aos mais diferentes tipos de pessoas deficientes, bancos e entidades governamentais, de todo o estado de São Paulo e até de outros estados.

Como profissional de marketing, julguei que seria interessante conseguir um espaço para oferecer arte para um público tão diverso. O espaço para galeria de arte e artesanato é gratuito. Montado o espaço passei a atender a clientela e a registrar o mar de personagens que alegremente transitam no pedaço. O grupo dos surdos-mudos é o que chama mais minha atenção, andam sempre em grupos e constantemente gesticulando freneticamente. Para nós, leigos, fica a impressão que estão discutindo ou brigando quando na realidade estão se comunicando em sua linguagem de libras, suas expressões faciais denotam alegria e felicidade. Já os cegos passam sozinhos orientados por uma longa e fina bengala branca ou por um cão-guia, ou ainda levados por um “cuidador”.

Os cadeirantes circulam em suas cadeiras, algumas levíssimas e muito rápidas para a prática de diversos esportes, outras ainda manuais ou motorizadas eletricamente e muitas tipo scooter, também elétricas. No mercado, existem muitas opções de triciclos elétricos. Na feira não registramos oferta desse tipo de equipamento. Meu segundo motivo para participar da Reatch era pesquisar as ofertas de veículos, de preferência elétricos, que me permitissem maior liberdade de circulação pelas ruas de nossa querida São Paulo. Nada encontrei. Como homem de marketing sai me perguntado: Porque fabricantes e revendedores de veículos leves, tipo triciclos elétricos, não estavam presentes? Em minha opinião teriam uma possibilidade de contato direto com alguns milhares de prospectes.

De quinta a domingo convivi com um imenso público, efetuei a cada dia algumas vendas, porém, o resultado final em termos financeiros foi negativo, apesar do apoio financeiro dos artistas que levei para a feira e da colaboração valiosa de um antigo companheiro da publicidade. Saio do evento de alma lavada. Diariamente vi e convivi com pessoas com os mais diversos graus de dificuldades. Todas demonstrando grande alegria de viver, estampando em seus rostos a determinação de ir avante, de viver intensamente a cada instante, superando as barreiras que lhes foram colocadas.

Vivi durante quatro dias a realidade de um grande paradoxo, a diversidade na adversidade, a vontade de viver intensamente fazendo e acontecendo, companheiros com necessidades especiais. Obrigado pela lição São Paulo.

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