Na última sexta-feira passada, 31 de agosto de 2012, fui assistir a uma missa de sétimo dia pela alma de Alessandra Calderaro Caprilles, 46 anos, vítima do insidioso mal, cujo nome pode-se imaginar qual seja: um tumor pulmonar, terminando com o sofrimento dessa moça, casada com Rodrigo, aficionado do tênis, no mesmo clube que frequento, aqui no parque Continental. Ela não fumava e nem bebia, mesmo assim, o mal a deixou padecer por quatro meses. Muito bonita e simpática, alegre e feliz.
A missa estava marcada para as 19h30 e seria rezada no salão nobre da paróquia por causa das reformas que a nave principal está sofrendo. Foram improvisadas cadeiras de plásticos para podermos, pelo menos, sentar. O salão estava lotado e muitos fiéis ficaram de pé; além dessa intenção, havia também, para um outro falecido, missa de 30 dias.
No início da missa, uma moça da equipe que auxilia nas missas começou a leitura do preâmbulo da cerimônia, com uma solicitação a todos que rezassem pelas almas dos dois falecidos e também pelas almas dos paroquianos falecidos recentemente, cujos nomes ela começou a mencionar. A maioria dos presentes me conhece bem, 45 anos de parque e clube, são suficientes para solidificar essa intimidade.
Após a menção do terceiro ou quarto nome, a moça diz bem alto e bem explícito: "Modesto Laruccia". Rapidamente fiz um retrospecto de minha vida, conheci duas pessoas com nome e sobrenome iguais ao meu. Um era amigo de infância, no Braz, que nunca mais vi e se ele morasse no parque eu saberia. Outro, meu primo, que me propiciou intermináveis visitas a cartórios por motivos óbvios, mas ele mora longe. Tem um outro Modesto, com sobrenome diferente, professor da USP, meu vizinho. Bem, só restou eu. Morri e não me avisaram, os que me viram entrar na igreja olharam para mim perguntando, com os olhos e gestos, "Quem é?". Descobri que estava vivo, ainda. Esperei ela terminar a leitura, levantei-me e disse: "Querida, o Modesto Laruccia mencionado nas intenções sou eu, não morri, como todos podem confirmar". Foi uma gargalhada só (não tinha essa intenção), a mocinha desculpou-se dizendo que era em "Ação de Graças" e não para os falecidos.
Esta foi a primeira vez que ouvi, com bastante seriedade, o anúncio de meu passamento. E não me senti bem não! Ninguém dos presentes suspirou, profundamente, mencionando o já calejado e batido amparo aos parentes: "Ele era tão moço, tão forte, saudável, tão bom…", por isso minha morte foi adiada, quero chegar aos cem anos. Obrigado a todos.
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