Como tudo mudou para todos nós nestes últimos anos, a nova tecnologia está revolucionando nossas vidas infinitamente. Os jovens, hoje, praticamente nem conversam mais entre si. Só virtualmente. Vivem por todos os cantos com os dedos em movimentos, para cima, para baixo, para os lados tentando ler ou mover o que aparece na telinha de seus “smartphones” ou de seus “video games”.
Minha neta, há pouco tempo, tinha encomendado um novo celular e pouco antes de receber a encomenda soube que tinha sido lançado um outro com o G4 e, sem pestanejar, cancelou a compra porque ele era um G3. E, assim, a nova geração vive praticamente no mundo da Lua. Já quase não há diálogos entre os entes queridos e tudo é feito em textos via redes sociais: Facebook, Twitter, Orkut, Myspace. E por onde quer que a gente ande, no metrô, em um ônibus e até caminhando pelas ruas, o cenário é o mesmo: cabeça baixa e dedos e mãos em movimento, procurando respostas ou soluções. E o pior é que a coisa vai ficando cada vez mais perigosa, com o costume de certas pessoas de ler e enviar textos enquanto dirigem. Antes, era menos perigoso quando falavam ao celular. O aumento dos acidentes, hoje, vive batendo recordes em todo o mundo, pois não há como um cérebro humano conseguir fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Neste lugar onde vivo o Congresso promete tramitar uma lei para proibir esse abuso, assim também como falar ao celular enquanto dirige, com pesadas multas. Será uma lei federal, porque aqui cada estado faz suas próprias leis e regulamentos e, às vezes, o que é uma infração para uns não é para os outros. Dando como exemplo, falar ao celular na Califórnia é proibido, já aqui onde moro não. Outro dia, perguntei ao filho de um amigo se ele sabia o que era uma máquina de escrever, no que ele me respondeu negativamente. Coisa que não me surpreendeu, uma vez que era coisa do passado, mas mesmo assim nem tão distante.
Hoje, com os tablets, notebooks ou laptops, os PCS e smartphones, que fazem tudo, não dá nem para comparar. Os erros de digitação deixaram de existir, a não ser propositadamente. Se cometermos um engano, se volta e se corrige, ao contrário de antigamente que o uso de uma borracha ajudava a apagar e quando o papel ficava muito marcado pelos erros constantes se arrancava a folha e se começava tudo outra vez com folha nova. Estas são coisas que herdamos deste mundo moderno que só tem tendência a piorar. A cada dia que passa as novidades tecnológicas, que antes demoravam décadas para acontecer, hoje, acontecem a todos os momentos.
Mas, voltando à antiga máquina de escrever que me propus a relembrar, quando eu tinha uns 15 anos, mais ou menos, meu pai me presenteou com uma, isso para um garoto pobre como eu era um enorme privilégio. Era uma Regminton portátil, que vinha em um estojo preto. A máquina internamente era de cor azul, quase anil. Talvez o seu presente tivesse como intuito me dissuadir da ideia de ser taxista como ele e estudar. Ao me presentear com essa máquina, ele me registrou em uma escola de datilografia que ficava perto de casa. O nome da escola era Carvalho de Mendonça, se não me engano, que ficava ao lado do antigo Cine Olímpia, na Avenida Rangel Pestana no bairro do Braz.
Aprendi a datilografar com relativa facilidade e, como cursava o ginásio o Vera Cruz na Rua Piratininga, tinha que encontrar tempo para tudo, pois também trabalhava na Livraria Saraiva por vontade própria, no centro de São Paulo, e o único dia em que podia ter aulas era no sábado à tarde, portanto, só uma vez por semana. Lembro das primeiras lições que eram para posicionar os dedos das duas mãos, com a esquerda A S D F G, H J K L C (para a cedilha), para a mão direita. Fazia esses treinamentos à exaustão e até consegui ser um datilógrafo razoável. Eu, realmente, adorava essa máquina, que me ajudou muito nos afazeres escolares e durante muitos anos foi minha companheira inseparável. Lembro que usamos muito essa máquina quando fundamos o 7 de setembro do Braz, nosso time de várzea. Com ela, nas nossas reuniões semanais, datilografávamos os ofícios convidando outros clubes para confrontos amistosos varzeanos. Bons tempos esses. Eu nunca fui muito bom de bola, mas exercia com carinho o cargo de diretor de nosso time e sempre sobrava uma vaga para mim no segundo time, o Aquilino, diretor esportivo, dava sempre um jeito. E aquela máquina de escrever me acompanhou ate o ano de 1965, quando tive que deixar São Paulo e de muita coisa, além dessa máquina, também tive que me desfazer com muita tristeza.
Ofereci a mesma a um amigo, o Lourenço Piconi, que logo se interessou pela máquina, pois tinha quatro filhas em idade escolar e achou que isso lhes iria ajudar nos afazeres escolares, sinceramente não me lembro por quanto lhe vendi a saudosa máquina. O Lourenço era nosso mecânico e sócio do Sr. Antonio Fávero, mecânicos especialistas da linha Chevrolet, verdadeiros artistas na sua profissão e estavam localizados no Itaim, no começo da Estrada de Santo Amaro, hoje Avenida com o mesmo nome, e era a conceituada oficina Bonsucesso, e que pouco antes de eu deixar São Paulo haviam adquirido uma sede própria na Avenida Macuco em Moema.
O tempo passou e sempre que vinha a São Paulo não deixava de visitar os meus amigos da oficina. Houve uma época que fiquei quase dez anos sem vir a São Paulo e acabei perdendo o contato com eles. No ano de 2010 me propus procurar amigos que havia deixado há 50 anos atrás. O Lourenço já não estava mais na Av. Macuco, pois a oficina mecânica já não existia naquele local. Aí, caminhando pela rua e perguntando, acabei por encontrar uma pequena mecânica na mesma rua e o proprietário, um jovem, lembrou que o pai dele, também mecânico, lembrava do Sr. Antonio Fávero, já falecido, e do Lourenço e me disse que ele tinha uma pequena oficina na Av. Morumbi e, por fim, acabei descobrindo onde estava o Piconi, só que ele já estava aposentado e só aparecia lá uma vez por semana. Pedi seu telefone à rapaziada que lá trabalhava, mas, como não me conheciam, negaram, mas deixei o meu e, já na véspera do meu embarque, recebi sua chamada e batemos um bom papo e, no fim, ele me lembrou que aquela máquina Regminton que ele havia comprado de mim ainda estava com ele e, segundo ele, em perfeitas condições. Eu fiquei surpreso, pois já fazia mais de 47 anos. Aí, como não tinha mais tempo de me encontrar com ele, nos despedimos e eu viajei de volta para casa.
Mas, não me esquecia daquela nossa conversa, pois aquela máquina tinha sido um presente de meu pai quando eu era adolescente. Chegou o fim de 2010 e no Natal, como sempre costumo fazer, enviei cartões natalinos a todos os amigos e para o Lourenço Piconi, além do cartão, lhe escrevi uma carta comentando sobre a máquina que não saia da minha mente. E perguntei a ele sobre a possibilidade de que ele me revendesse a máquina, pois embora ela já não fosse me servir como em outros tempos, o valor estimativo era grandioso e eu pagaria o preço que ele pedisse. Em seguida, logo na véspera de Natal, recebi um cartão dele junto com uma carta resposta dizendo que a máquina estaria a minha disposição quando eu quisesse. Como já tinha uma viagem marcada para abril de 2012, não tive dúvidas. E como já tinha seu endereço e telefone, logo que cheguei, entrei em contato com ele e marcamos um encontro em seu apartamento em Moema. Ele, muito gentilmente, veio de São Roque ao meu encontro, onde passa a maior parte do tempo gozando da tranquilidade, na sua estância naquela região.
Eu não conseguia acreditar na possibilidade de ter aquela preciosidade de volta depois de tanto tempo e, principalmente, sendo ela uma lembrança que ganhei do meu velho. E depois de um bom papo, relembrando os velhos tempos e dos amigos remanescentes que ele ainda mantinha contato, começamos a falar da saudosa máquina que eu ainda não havia visto e a Sra. Piconi, que eu havia conhecido naquele momento, ainda fez uma ressalva dizendo que ela admirava pessoas que davam valor e amavam coisas de um passado tão distante. E meu grande amigo Lourenço fez ainda questão de me presentear com a máquina, por mais que eu insistisse recomprá-la. Assim, depois de tantos anos, a que tinha sido minha companheira inseparável voltou comigo em uma longa viagem, para inclusive matar a curiosidade dos meus netos manuseando a minha velha e saudosa máquina de escrever. E quero deixar meus agradecimentos ao casal Piconi por me proporcionar essa enorme emoção.
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