A promessa

A avó dançava "la jota" quando feriu o pé. O ferimento não cicatrizava e precisaram levá-la até a Central, onde um médico diagnosticou – "diabetes açucarada", avisando que se lhe viesse uma gangrena úmida, acompanhada de putrefação, seria preciso amputar o pé. Doce, melada, açucarada, a avó chorou inconformada quando soube que poderia até perder o pé. "Por tener dulce, la sangre"?<br><br>Depois da operação, Tio Juan vestiu-se de "San Antonio" para pagar a promessa que fizera. A Rua Luis Gama estava em peso, havia gente de toda a várzea do Glicério, Lavapés, Cambuci e imediações. Velas, flores, bilhetinhos, fitas, pedidos de graças, tudo foi colocado em duas cestas. Iriam à Igreja da Penha em três carros negros, de aluguel. Sozinho, ajoelhado no chão do primeiro carro porque prometera ir à Igreja da Penha de joelhos, o tio nem olhava para a avó que esbravejava prometendo que o iria matar, esfolar, "hoy yo lo mato!".<br><br>É que fora preciso arrancar o banco da frente do primeiro carro para que aquele ali coubesse ajoelhado, murchas as flores das cestas, tanto tempo custara este trabalho ao pobre do motorista. Este era um vizinho e achara um absurdo tal promessa, "prometer ir de joelhos até a Igreja da Penha, tão distante e inacessível ficava a Penha do Cambuci?".<br><br>Fora este vizinho, também quem deu a ideia de colocar o tio de joelhos em um carro de aluguel, porque só desse modo poderia chegar à Igreja da Penha de joelhos, como prometera, que promessa era coisa séria e não poderia deixar de ser cumprida. E, naquela manhã perfumada, ensolarada, florida, de setembro, a mãe rezava e repetia que "su hermano", dentro daquele carro, parecia "un santo"!<br><br>Ajoelhada na calçada, cercada de vizinhas e curiosos, a mãe, em transe, repetia, "mi hermano Juanito parece un santo!". Para a mãe, fazia tempo que "su hermano Juanito" se tornara um santo,"un santo hermano". <br><br>Isto porque era o tio quem lhe ditava as cartas que escrevia de volta para o pai quando este se encantou por um "rabo de saia" e foi embora. É que o pai escreveu para a mãe perguntando se já havia desquite aqui em São Paulo. "Si, para el otro mundo!", foi a resposta que o tio ditou na primeira carta que a mãe fez. Na segunda carta, o pai escreveu oferecendo-se para repartir os filhos, a carga, e assim aliviar o peso das costas da mãe.<br><br>"Hijos no son bananas que se repartán!", ditou o tio e mandou que a mãe escrevesse também, "y apuntele que tu no precisas de nadie porque tienes um hermano que es un santo para ti!". "Fiate nel santo y no corras!", o pai respondeu, na terceira carta, que foi o última, a derradeira que os dois trocaram porque o pai se arrependeu e voltou. <br><br>Soou três vezes o carrilhão do Mosteiro de São Bento. Ao som da terceira badalada, a mãe dormiu e finalmente descansou. Com quem contaria agora a mãe? Com o pai, com Deus ou com Santa Clara? A Santa que seus caminhos clareavam.<br><br> <br>E-mail: [email protected]