– Fulana, vai arrumar esta casa. Até parece uma maloca…
– Beltrano, ajeita esta bagunça. Isto está parecendo um cortiço…
Quem, um dia, nunca ouviu estas exclamações? Pois, no Bixiga, como também em muitos outros bairros paulistanos, era comum ouvir-se. Em meus tempos de garoto, morava na velha e bastante conhecida Rua Santo Antonio, próximo do não menos famoso largo da “Cinco Esquinas” que fazia confluência com as ruas São Domingos, Treze de Maio, Delegado Everton e a própria Rua Santo Antonio.
Próximo de minha casa havia um casarão cujos cômodos cederam lugar para um núcleo de habitações humildes onde esta comunidade era conhecida como “maloqueiros”. No geral, estes velhos casarões tinham em seus interiores ambientes bem espaçosos como quartos e salas, além da cozinha (que poderia ter até dispensa) e amplo banheiro social. Eram edificados em terrenos de boa metragem e possuíam um grande quintal que permitia boa área verde ou pequenas plantações (milho, laranjeiras, nespereiras ou mesmo hortaliças e alguns legumes).
Com o passar dos tempos, o grande casarão tornou-se habitação coletiva para as pessoas de poucos ou quase nenhum recurso financeiro e seus amplos cômodos foram cedidos à preços de módicos aluguéis, para as famílias e seus “rebentos” e todos se “ajeitavam” no exíguo espaço mas, que por não ser tão exíguo assim, poderia se tornar em uma pequena “kitchenet”, internamente dividida em dois ambientes (bastava, para tanto, uma simples cortina e “voilá”, tínhamos um pequeno “quarto” de sala com cozinha anexa). O banheiro, logicamente, era um só e servia a todos, desde que o ritmo e as prioridades fossem respeitados.
Neste específico casarão (que hoje deu lugar a um estacionamento de veículos) ficava a “Maloca do Doido Moacyr”. Sua mãe (que não me recordo o nome) era a zeladora daquela coletividade e ocupava o cômodo mais expressivo da maloca, ou seja, a enorme sala principal que antes servia como sala de visitas da família que outrora ocupou a casa em seu todo. Este cômodo era considerado pelos moradores da maloca como o de mais importância, pois, suas janelas davam vistas para a rua e sua entrada ficava no alpendre interno da casa, o que, estrategicamente, se poderia considerar como uma espécie de “recepção” ou “portaria” do tal “condomínio”.
Por ser de construção antiga, a edificação dispunha de porões inferiores que, imediatamente, se transformavam também em outros “cômodos” e assim cediam lugar para outras famílias e seus “rebentos” e, com passar dos anos, a comunidade viria a se formar pelos “anúncios” propagados na base do “boca-em-boca”, para muitos migrantes e imigrantes que por ali chegassem oriundos de suas mais diversas origens e em busca de melhores oportunidades na cidade grande. Eram pessoas das mais diversas vertentes. Interioranos, sulistas, nortistas, nordestinos, descendentes de italianos, espanhóis, portugueses, japoneses, enfim, uma verdadeira “nações unidas”.
Mas, “maloca”, no contexto léxico, isto é, no que tange ao dicionário da língua portuguesa, significa: casa de habitação indígena que aloja várias famílias… e, portanto, não é uma adjetivação pejorativa. Contudo e por “corrupção” da linguagem, torna-se ofensivo quando queremos nos referir a algo ou situações de anormalidade, bagunças ou desordens em determinados locais. A maloca de minha rua acolhia pessoas humildes. Gente simples que encontravam nos pequenos espaços um pouco de paz e tranquilidade e a oportunidade para sonharem por dias melhores e felizes e eu acreditava nisto, pois, de todos os funerais que testemunhei em meu quarteirão, nunca vi sair um féretro sequer da maloca. Acho que a união e o sofrimento daquela gente era bastante forte que lhes proporcionava uma longevidade maior e, apesar de todas as dificuldades com infraestrutura e saneamento básico, esforçavam-se as donas de casa em manterem o mínimo de higiene e limpeza.
Roupas quaravam ao sol ou eram penduradas nos muitos varais. Tanques de cimento eram disputados para a lavagem dos lençóis, toalhas, camisas e calças, roupas femininas e fardas escolares. Por vezes, uma discussão que envolvia algumas mães mais zelosas, acerca das peraltices de alguma criança, mas, tudo voltava às boas e bem antes das rádio-novelas da extinta rádio São Paulo ou mesmo da “Hora da Ave-Maria”, transmitida pela rádio Nacional e na voz do saudoso Pedro Geraldo Costa, com direito ao copo d'água em cima do rádio para ser benzido.
À noitinha, quando da chegada dos maridos ou mesmo companheiros, amantes, concubinos ou o que quer que fossem, o inigualável aroma do bom e velho “arroz com feijão” e uma mistura qualquer dominava a atmosfera local, entremeada pelo perfume inigualável do café fresquinho e coado na hora. Era a hora de maior movimento na maloca, principalmente para a utilização do banheiro, único para uma dezena de famílias. Mais tarde e em um mutirão, instalou-se outro banheiro para “desafogar” o trânsito dos usuários.
A noite segue o seu rumo e a calmaria reina absoluta pelos quintais da velha maloca. Algumas crianças já estão dormindo, outras se ocupam de seus deveres escolares e os adultos, alguns se reúnem para uma conversa informal, outros ainda não chegaram e alguns poucos estão no bar da esquina afogando suas mágoas em algumas doses de “rabo-de-galo”, ou discutindo sobre seus times favoritos, trabalho ou outros assuntos para matar o tempo. Cai a noite pesada, e com ela a madrugada, e a maloca agora dorme em seu silêncio só cortado pelo movimento dos carros que passam na rua ou um pouco mais abaixo do quintal, na Avenida Nove de Julho.
Dorme a maloca e os seus “maloqueiros” para despertarem na manhã seguinte e tocarem suas vidas na mesma rotina de sempre, de todas as semanas, de todos os meses, de todos os anos, que só é quebrada quando uma singela festinha de aniversário ou outra festividade, comemoração ou mesmo campeonatos futebolísticos alterem este panorama. Malocas do Bixiga. Elas estiveram (algumas ainda estão por lá?) na Santo Antonio, Luiz Barreto, São Domingos, 13 de Maio, Rui Barbosa, Major Diogo, Manoel Dutra, enfim, em todo o Bixiga, em toda a Bela Vista, em toda a São Paulo.
"Saudosa maloca
Maloca querida
Dim dim donde nóis passemos
Dias feliz de nossas vidas…"
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